Skip to content Skip to footer

O Espelho de Antônio

Quem acompanha meus textos percebeu, nas últimas semanas, a aparição discreta de um novo rosto no universo de Joaquim Gonçalves de Toledo: Antônio Gonçalves de Carvalho. Não, eles não compartilham laços de sangue, apenas uma coincidência, nascida de um erro de digitação que acabou produzindo um sobrenome cuja sonoridade me agradou. Às vezes, a literatura se permite esses acasos férteis: tropeços que abrem portas que a intenção não teria coragem de tocar.

Antônio existe nas quase duas mil páginas que escrevi para Joaquim, mas não depende dele. Suas trajetórias se cruzam como dois viajantes que se reconhecem na poeira do mesmo caminho, embora suas histórias pudessem seguir adiante sem que um fizesse falta ao outro. Ainda assim, Antônio permaneceu; talvez porque, desde o início, eu soubesse que ele carregava algo que eu precisaria enfrentar.

O que ainda não havia dito, mas que os capítulos de A Serra da Traição já começam a revelar, é que Antônio é um vilão. Não apenas o antagonista, mas o tipo de vilão que insiste em ocupar o centro do palco. Protagonista de sua própria ruína, ele exibe sem pudor tudo aquilo que costumamos esconder nas dobras do comportamento. É egoísta, narcisista, racista, hedonista. Enxerga o mundo pela lente utilitária de quem só valoriza o que serve. E, mesmo assim (ou por isso mesmo) não consigo odiá-lo.

Há personagens que escrevemos com a razão; outros, com a memória; e alguns, com aquilo que tentamos esquecer. Antônio pertence a essa última categoria. Para lhe dar vida, deixei escorrer para a página o que havia de mais sombrio em mim. Não por confissão, mas porque certas sombras, quando privadas de linguagem, insistem em se manifestar de outros modos menos seguros.

É curioso notar como, às vezes, as características que mais repudiamos em nós — aquelas contra as quais lutamos em silêncio, são justamente as que despertam um estranho carinho. Talvez porque, em algum momento da vida, tenha sido atrás delas que nos escondemos para sobreviver aos golpes dos outros. A crueldade, nesses casos, cumpre o papel de couraça, não de essência.

Antônio, portanto, tornou-se o espelho mais nítido daquilo que desejo extirpar. Um espelho que não deforma, apenas devolve. E, mesmo assim, é dele que mais receio me libertar. Talvez porque, ao abandonar a sombra, temamos perder também a força que ela nos emprestou em tempos difíceis.

Não me confundo com ele, e ele jamais será eu. Mas caminhar ao lado de Antônio (ainda que por páginas) tem me oferecido a visão necessária para enxergar melhor a mim mesmo. A literatura, por vezes, é menos um exercício de invenção e mais uma arqueologia do que somos.

Quanto ao destino de Antônio, posso dizer sem revelar demais: ele não termina bem. Não o bastante para compensar tudo o que fez, mas o suficiente para lembrar que até os mais sombrios, por mais errados que estejam, às vezes carregam alguém que os amou. E isso, no fim, pesa mais do que o castigo.

Deixe um comentário