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O Bug do Amor

Era o réveillon de 2000. Enquanto quase todos brindavam a chegada do novo milênio — nas praias, sob fogos, cervejas e promessas —, dois primos, Fabrício e Rivaldo, estavam trancados no quarto, diante do computador. Tinham dezessete e dezesseis anos, e esperavam, ansiosos, o fim do mundo anunciado pelo “bug do milênio”. Entre uma risada e outra, imaginavam os sistemas bancários e de defesa em colapso, o caos global prestes a se instaurar.

A porta se abriu de repente.

— Vocês vão ficar aqui dentro até quando? — perguntou Carla, amiga de infância dos dois e motivo secreto de desejo de ambos.

Tinha dezesseis anos, cabelos louros, olhos verdes e um corpo que anunciava, em curvas, a mulher que seria. Desde que despontara para a adolescência, chamava a atenção onde quer que passasse. Os rapazes a olhavam com fome; ela, sem perceber, nutria uma estranha satisfação por isso.

— Já vamos — respondeu Fabrício, sem desgrudar os olhos da tela do computador, numa sala de bate-papo sobre teorias da conspiração.

Fora do quarto, a festa seguia. Os pais de Fabrício animavam os convidados e tentavam, sem sucesso, tirar o filho do computador. Quando não estava online, ele passava horas em alguma lan house jogando Counter Strike com os amigos. Rivaldo, o primo mais novo, era sua sombra constante.

Carla, sem se dar conta, vivia dividida entre os dois: o ar introspectivo e inteligente de Fabrício, o corpo atlético e a impulsividade de Rivaldo. Evitava se decidir — temia provocar uma guerra entre os primos. Mas, naquela virada de ano, decidiu que escolheria. Só não sabia quem.

A resposta veio rápido. Rivaldo foi o primeiro a levantar-se do computador e ir até a varanda. À meia-noite, sob a contagem regressiva e os fogos, beijou Carla. Fabrício, ao sair do quarto e vê-los, ficou atordoado. Engoliu seco, fingiu indiferença e deixou pra lá.

Dias depois, porém, cobrou o primo. Discutiram. Romperam. Mas a distância durou pouco. E, num gesto de coragem e despeito, Fabrício procurou Carla. Disse o que sentia. Ela resistiu, mas, como já não estava com Rivaldo, achou que não havia mal em ceder — desde que fosse segredo. Não queria reabrir feridas.

O segredo, contudo, não resistiu. Fabrício queria que Rivaldo soubesse. Queria feri-lo. Numa tarde qualquer, na lan house do centro, contou tudo ao primo. Rivaldo, furioso, foi tirar satisfação com Carla. Exigiu que ela escolhesse. E ela escolheu: Fabrício.

Engataram um namoro sério. Rivaldo, ferido no orgulho, afastou-se. Tentou curar-se mergulhando em aventuras. Tornou-se um Don Juan de fachada, colecionando rostos e vazios.

Quatro anos depois, o namoro de Fabrício e Carla ia mal. As brigas eram constantes. Fabrício, sempre distraído com o trabalho e os jogos, deixava Carla faminta de atenção. Rivaldo, ainda apaixonado, percebeu a brecha. Aproximou-se. E, numa dessas crises, deu o bote.

Passaram a noite juntos. Carla, ao voltar para Fabrício, sentiu algo estranho: amava-o mais. Desejava-o mais. Como se a infidelidade tivesse acendido algo nela. Fabrício também notou: ela estava mais carinhosa, mais intensa, mais viva. Não desconfiou. Ou preferiu não saber.

Rivaldo prometeu guardar segredo. E guardou — esperando uma nova chance. Que veio, como sempre, depois de outra briga. Carla voltou a procurá-lo. E o ciclo se repetiu. Descobriu, para sua surpresa, que os encontros com Rivaldo melhoravam sua relação com Fabrício. Era como se o pecado a tornasse mais fiel, o erro mais apaixonada, o remorso mais sensual.

Com o tempo, tudo se naturalizou. Os rumores se espalharam. Gente próxima começou a comentar. Fabrício fingia não ouvir. Queria acreditar que dominava a própria realidade.

O casamento veio mesmo assim. Na véspera, Rivaldo decidiu contar tudo. Foi até a casa de Fabrício e despejou a história. Fabrício o ouviu em silêncio, sem raiva. Quando o primo terminou, ele apenas disse:

— Eu sei de tudo isso há mais de um ano. E aceito.
— Como é que é? — perguntou Rivaldo, perplexo.
— Eu aceito. E até gosto. Ela volta diferente. Mais carinhosa, mais fogosa. E eu fico em paz para jogar meus jogos.

Esperando um soco, Rivaldo recebeu um abraço. A partir daí, o impensável tornou-se rotina. Carla e Rivaldo passaram a se encontrar com o consentimento tácito de Fabrício. Aos poucos, nem se escondiam mais. E, num passo natural da insanidade, Rivaldo mudou-se para a casa do casal.

Formavam um trisal. Nos bares, nas festas, nos corredores — estavam sempre juntos. O primeiro ménage aconteceu um ano depois. E repetiu-se, como se o amor tivesse encontrado nova forma, livre de culpa, livre de moral.

Até que o inesperado aconteceu. Certa tarde, Carla chegou mais cedo do trabalho. Queria surpreender os dois, celebrar a estranha harmonia que haviam construído. Subiu as escadas sorrindo. Ouviu ruídos. Entrou no quarto.

Os dois primos estavam na cama, um no outro.

Carla parou. O tempo parou. O amor, o desejo, o orgulho, tudo se dissolveu num instante de silêncio absoluto. Sem gritar, sem chorar, desceu as escadas. Caminhou pela rua, sem rumo, até a ponte mais próxima. Lá de cima, olhou o rio, o céu, o nada — e saltou.

O bug do milênio, afinal, chegara. Mas não era dos computadores. Era do amor.

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