Há quem repita, com certo ar de triunfo, que aqueles que veem o amor mais como companheirismo do que como romantismo são espíritos desiludidos, gente que perdeu o encanto e resolve arrastar os outros para o mesmo breu. Sempre achei curiosa essa pressa em decretar que maturidade seja sinônimo de cinismo. Pois eu digo que não. Há um outro brilho que só se revela quando as luzes da paixão diminuem.
Lembro-me do altar, do padre me olhando nos olhos como quem atravessa a alma. A pergunta que ele fez não tinha nada de etérea ou poética; não falava de jantares à luz de velas, de sussurros febris ou de promessas infladas pelo calor da juventude. Ele quis saber se eu estaria com ela por toda a vida. E toda a vida, aprendi rápido, não cabe num cartão de flores. Toda a vida é feita de dias comuns, de preocupações, de noites mal dormidas, de medos compartilhados e silêncios que pedem paciência para serem decifrados.
Era a isso que eu dizia sim. A ser companheiro quando a alegria se espremesse para dar lugar ao cansaço. A sustentar o que construímos quando as paredes trincassem. A oferecer o ombro quando a tempestade insistisse em voltar. E ela, do outro lado, dizia sim às minhas próprias sombras.
Mas há quem insista que tratar o amor como parceria é esvaziá-lo de poesia, como se a poesia coubesse apenas no frescor do primeiro olhar, no arrepio involuntário, na vibração elétrica da paixão. Como se alguém pudesse viver para sempre com o estômago cheio de borboletas, ou com aquele incêndio juvenil que faz do corpo uma fronteira em chamas.
Amar, descobri, é escolher alguém para quando a beleza for apenas uma lembrança pousada no rosto, quando o corpo já não responder com o mesmo ímpeto, quando o tempo fizer da pele um mapa antigo. É estar ali quando o mundo vai ficando menor, quando as vozes se dispersam e apenas uma permanece ao alcance da mão.
E, no fim, percebo que não há poesia mais nobre do que essa: a de permanecer. A de apostar no futuro quando o futuro talvez seja apenas a tranquilidade de um quarto silencioso, a partilha de uma rotina que ninguém vê, ou até mesmo a tristeza de um túmulo que lembra que fomos, um dia, dois.
Porque o amor, esse amor de verdade, aponta sempre para além de nós. Ele é memória, promessa e destino. Ele se dobra à vida sem se quebrar, e se estende para onde não alcançamos. Talvez por isso fale tanto de eternidade.
