Registro o processo de criação de Rios de Sangue e Ouro aqui porque a memória falha. Não a memória dos fatos (essa nos arquivos) mas a memória das razões. Por que esta cena existe. Por que este personagem toma esta decisão que parece estranha e só faz sentido quando se conhece a história inteira, inclusive…
Mandei para minha Leitora Beta um post simples: quinze perguntas para um leitor beta. A resposta veio dias depois. Li com atenção. E o que mais me disse não foi o que ela escreveu claramente. Foi o que ela tentou aliviar.
Há um gesto específico que leitores de confiança fazem quando precisam dizer algo difícil:…
No terceiro capítulo da nova série Dona Beja, da HBO, senti que havia perdido o fio. Não o da história; o da credibilidade. O que estava diante de mim não era dramaturgia. Era uma agenda vestida com roupagem de época.
Decidi assistir à série por razões vagas. Era muito criança quando a TV Manchete fez…
Eu escrevi Manuel Nunes Viana como ele gostaria de ser lembrado.
Não foi intenção. Foi pior: foi desleixo intelectual disfarçado de pesquisa. Mergulhei nas fontes, encontrei as narrativas que me seduziram. O primeiro governador escolhido pelos mineradores, o defensor dos forasteiros, o líder que emergiu da vontade do povo, e escrevi o personagem que essas…
Continuo em minha saga de revisar Rios de Sangue e Ouro e há algo ali que não consigo mais segurar: Joaquim não me obedece. Não da maneira que ele obedecia. Quando o forço a agir como antes, ele resiste com uma passividade que é, em si mesma, uma forma de protesto.
Comecei a escrever na…
Quando o personagem histórico está suficientemente morto, podemos fazer quase tudo com ele. Inventar silêncios. Preencher lacunas. Emprestar intenções que os documentos não registraram. Ninguém cobra a dívida.
Mas há personagens que não estão suficientemente mortos. Não porque ainda vivam, mas porque ainda habitam o imaginário de quem lê. Narrar esses personagens é outro tipo…
Costumo dizer que O Último Trem é um projeto menor. E, enquanto digo, acredito.
É verdade. E é uma meia verdade.
O romance nasceu numa pausa. Minha Leitora Crítica precisava de tempo para analisar Rios de Sangue e Ouro, um livro que ela praticamente está me fazendo reescrever do zero. Enquanto esperava, escrevi O Último…
Voltei das férias de janeiro com uma lista. Não o tipo que se escreve e se esquece; o tipo que assombra. Três itens. E cada um deles, à sua maneira, acabou revelando algo que eu não esperava encontrar.
O primeiro item era concluir O Último Trem e enviá-lo às editoras. Concluí em janeiro. Em fevereiro,…
Escrever às vezes parece um gesto para fora. Um movimento de quem entrega algo ao mundo. Mas, para mim, nunca foi exatamente assim.
Quando escrevo, não sinto que estou lançando palavras adiante. Sinto que estou descendo. Mergulhando. E quanto mais fundo vou, menos protegido fico.
Criar personagens é uma forma de me esconder e, ao…
Rios de Sangue e Ouro voltou da Leitora Crítica antes do início das férias escolares. Minha primeira leitura do parecer me inquietou. Não havia nada ali que eu pudesse simplesmente cortar sem ferir o sentido da obra; e o corte era, justamente, o que eu buscava.
Viajei, voltei à rotina, deixei o texto repousar. No…
Às vezes me pego pensando se Deus não é, antes de tudo, um escritor.
As pistas estão espalhadas como notas de rodapé da criação. O Gênesis afirma que o mundo foi feito pela Palavra. O Evangelho de João vai além: no princípio era o Verbo e o Verbo não apenas estava com Deus, como era…
