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Influencers do Lar

Não bastassem os golpes que os casamentos sofrem diariamente (alguns velhos, apenas maquiados, como a infidelidade facilitada pelas redes sociais ou o machismo que reaparece travestido de virilidade política) somam-se agora conflitos mais recentes, respostas mal calibradas, ressentimentos que confundem libertação com negação completa do outro. Tudo isso já seria suficiente para manter qualquer relação em estado permanente de alerta. Ainda assim, eis que surge mais um inimigo, silencioso e bem iluminado.

Outro dia, enquanto rolava o feed do Instagram, essa fonte inesgotável de dramas íntimos apresentados como entretenimento, deparei-me com um vídeo curioso. Era uma jovem mãe. Pouco mais de trinta anos, imaginei. Falava com convicção, mas também com um cansaço que não se ensaia. Descobri pelos comentários que sua história não era exceção; era quase um gênero.

Ela contava que começara a trabalhar cedo. Casara-se jovem, ainda com o primeiro namorado. O marido era trabalhador, dizia, mas o salário dele não bastava para manter a casa. Foi natural, portanto, que ela também contribuísse. O dinheiro dos dois garantia uma vida modesta, mas confortável; dessas que não rendem fotos exuberantes, mas pagam as contas.

Quando veio o primeiro filho, o equilíbrio se rompeu. Embora o marido participasse, embora a criança ficasse parte do tempo com a avó, o peso parecia sempre maior sobre ela. Trabalho, casa, maternidade. O cansaço deixou de ser apenas físico e tornou-se existencial. Ela dizia que queria cuidar do filho, que sentia ali sua vocação mais profunda, mas não podia simplesmente abandonar o emprego. A vida real raramente oferece escolhas puras.

Foi nesse turbilhão que ela conheceu, pela internet, um influencer (supostamente católico, como ela; como eu). Ele pregava com segurança que o papel do “verdadeiro homem” era prover, sustentar, livrar a esposa do fardo do trabalho. Dizia, sem pudor, que um lar que dependesse do salário feminino era sinal de fracasso masculino. Falava com a autoridade de quem nunca precisou escolher entre o ideal e o possível.

O efeito foi devastador. O casamento, antes cansado, tornou-se campo de batalha. Vieram as cobranças, as comparações, a frustração. O divórcio foi apenas a formalização do caos. Convencida de que merecia ser resgatada daquela vida que aprendera a enxergar como servidão, ela passou a procurar um homem que encarnasse o ideal vendido na tela. Encontrou apenas oportunistas. O ex-marido? Esse, naturalmente, já não queria nem ouvir seu nome.

No final do vídeo, a jovem fazia um alerta a outras mulheres: cuidado com esse discurso. Ele promete libertação, mas entrega desilusão.

Fiquei pensando que, se para nós homens (especialmente os de meia-idade, como eu) o risco constante são as imagens sedutoras, os conteúdos que dissolvem o compromisso em prazer imediato, para as mulheres talvez o perigo maior esteja nesses pregadores de pedestal. Gente que fala de lugares inalcançáveis, cercada por viagens, carros, roupas e estilos de vida que não cabem na realidade da maioria. Não é apenas moral o que vendem; é fantasia embalada como dever.

O problema não é desejar uma vida melhor. É acreditar que ela pode ser imposta como regra, ignorando limites, contextos e fragilidades humanas. Agora, além de tudo, há quem esteja vendendo um modelo de família anacrônico, caro demais para quase todos e cruel com quase todos.

Que Deus nos ajude! Não a voltar ao passado, mas a distinguir promessa de armadilha.

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