Sempre desconfiei da frase: “Errar é humano, perdoar é divino.” Há nela uma hierarquia implícita que me soa confortável demais, como se o perdão estivesse num patamar inalcançável, reservado a uma natureza superior, enquanto a nós restasse apenas a falha.
Nunca me convenceu.
Talvez porque o perdão, ao contrário do que se repete, seja o gesto mais humano que existe.
Errar pode ser instinto. Pode ser fraqueza, impulso, ignorância, orgulho. Perdoar, não. Perdoar exige atravessar a própria ferida. Exige olhar para o que nos atingiu e decidir que aquilo não será a última palavra. Isso não é divino. É profundamente humano.
Costuma-se dizer que Deus perdoa. Mas Deus, que tudo sabe, não precisa de esperança. E o perdão, para nós, quase sempre é um ato de esperança. Um salto no escuro. Uma aposta de que o amanhã pode não repetir o ontem. O perdão divino talvez nos sirva mais do que a Ele.
Existe uma versão moralmente elegante do perdão: “Perdoar não é esquecer, é não permitir que o ressentimento te corroa.” É uma frase bonita. Funciona bem em palestras e postagens inspiradoras. Mas na vida real, o ressentimento não desaparece por decreto. Ele se comporta como cicatriz: fecha, mas não some. Em certos dias, arde.
Com pessoas que nunca mais veremos, é mais simples. Coloca-se uma pedra sobre o assunto e segue-se adiante. O tempo, generoso, ajuda. Mas e quando a história continua? Quando o outro está à mesa do jantar? Quando dorme ao seu lado?
No casamento, o perdão não é teoria. É convivência. Não é um botão que se desliga. Não é matemática afetiva onde se pesam erros e acertos numa balança imaginária. Tampouco é esquecimento; porque esquecer pode ser apenas o caminho mais curto para que tudo se repita.
Também não acredito que o ressentimento seja plenamente superado. Ele se acomoda. Fica silencioso. Às vezes parece ausente. Mas está ali, como memória viva do que doeu. Negá-lo é ingenuidade. Alimentá-lo é corrosão.
Então a pergunta inevitável surge: você não acredita no perdão?
Acredito. Mas não como mágica.
Acredito que, sobretudo em um casamento, o perdão só existe quando deixa de ser autoengano e se torna esperança. Não é um ato solitário. Ele exige reconhecimento. Exige que o outro enxergue a própria falha. Só assim o salto faz sentido. Só assim o “talvez” se sustenta.
Porque é disso que se trata: talvez o amanhã seja diferente. Talvez seja melhor. Talvez possamos construir algo que ainda não sabemos nomear.
E às vezes, para o amor, o talvez já basta.
Há casamentos que continuam apenas por inércia: filhos, bens, rotina, medo de recomeçar. Vivemos tempos líquidos, dizem. Relações frágeis. Mas também há laços que permanecem mesmo quando a esperança já foi embora, e aí o que sobra é guerra silenciosa dentro de casa.
Nessas horas sempre aparece alguém pronto para simplificar: “É preciso perdoar. É preciso superar.” Como se a alma funcionasse em modo liga/desliga.
Não funciona.
Perdão não é apagamento. Não é submissão. Não é anestesia. É decisão arriscada. É reconhecer que fomos feridos e, ainda assim, escolher não fazer da ferida nossa identidade. É afirmar que o passado existiu, mas não será soberano.
Enquanto houver esperança, há possibilidade de perdão.
E amar alguém talvez seja isso: sustentar, contra todas as evidências, a esperança de que o outro (e nós mesmos) ainda podemos ser diferentes do que fomos ontem.
