Sabe aquelas lembranças que o Google Fotos insiste em nos devolver como se dissesse: “Olhe o que você não viu passando”?
Outro dia apareceu um réveillon de 2022, em Búzios. Nem faz tanto tempo. Mas a fotografia denunciava outra cronologia. Meu filho tinha dez anos. Era nitidamente um menino. Mais baixo que a mãe. Rosto ainda arredondado pela infância. Havia nele aquela leveza de quem ainda não precisa sustentar o próprio peso no mundo.
Hoje tem catorze. Em cinco meses fará quinze. A voz engrossou sem pedir licença. As espinhas vieram como um aviso biológico de que o corpo já negocia com a vida adulta. Está mais alto que a mãe. Mais alto que eu, ainda não, mas é questão de tempo.
E a pergunta veio sem cerimônia: Quando foi que a infância do meu filho acabou e eu não percebi?
Não foi por ausência. Gosto de pensar que fui (e sou) um pai presente. Mas a rotina tem o hábito cruel de normalizar os milagres. A gente acorda, trabalha, cumpre tarefas, paga contas, repete o ciclo. E, enquanto isso, o tempo trabalha em silêncio. Um dia você percebe que seus cabelos embranqueceram e que aquele menino já não é mais menino.
Ele praticamente me obrigava a aproveitar a infância dele. Todas as noites, depois do trabalho, eu me deitava exausto na cama e ele aparecia. Duas horas de brincadeira. Eu participava menos do que gostaria; o cansaço me impedia de ser mais ativo. Mas estava ali. Quase sempre. Às vezes penso que ele brincava por nós dois, como se quisesse garantir que a memória não falhasse.
Houve um tempo em que sair de casa sem ele exigia estratégia. Mesmo para tirar o carro da garagem, ele queria ir junto. O mundo era pequeno demais para caber só em mim; ele precisava estar. Eu era parte da diversão.
Depois veio o videogame. Eu precisava largar o que estivesse fazendo para jogar com ele — ou melhor, para jogar para ele. Não era sacrifício. Era interrupção. Duas, três horas no quarto. Hoje sinto falta disso. Faz tempo que ele aprendeu a jogar sozinho. Muito melhor do que eu. Agora joga online com os amigos. A porta fechada substituiu a presença constante.
Talvez eu sinta falta não apenas da infância dele, mas da gravidade que existia entre nós.
Houve um tempo em que eu e minha esposa éramos o centro de sua órbita. Ele girava ao nosso redor. Nós, ao redor dele. Era um sistema fechado, harmônico. Mas a vida tem leis próprias. A gravidade muda. O eixo se desloca. Ele começou a orbitar outros mundos; amigos, descobertas, desejos que ainda não conhecemos.
O deslocamento o tirou de nós. Mas não nos tirou dele.
Continuamos orbitando.
Sabemos que o curso natural das coisas aponta para o ninho vazio. Não como tragédia, mas como cumprimento do que fizemos certo. Criar um filho é, no fundo, prepará-lo para partir. Ainda assim, penso (em silêncio) quem sentirá mais quando esse dia chegar. Eu ou ela?
Suspeito que seremos os dois.
E talvez seja essa a última lição da paternidade: a infância acaba para eles antes que termine para nós.
