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O Que se Aprende ao Caminhar Juntos

Em uma de nossas viagens de inverno, visitamos o MASP. Eu esperava um passeio comum, desses em que os pais explicam e os filhos ouvem pela metade. Mas, ao cruzarmos as salas do museu, foi Cadu quem assumiu a condução. Parava diante das obras, comentava detalhes, reconhecia estilos, citava nomes que, confesso, eu mesmo não lembrava. Fiquei entre o orgulho e um leve espanto: quando é que ele aprendera tudo aquilo?

Algum tempo depois, na reunião da escola, minha esposa ouviu da professora de artes exatamente o que havíamos percebido no museu: Cadu possuía uma curiosidade rara e um repertório surpreendente para a idade. Antes de elogiar o menino, a professora fez questão de comentar o olhar cultural da minha esposa; devolvendo o mérito aos pais. Minha esposa, sempre direta, completou: “Isso é fruto de pais educadores.”

Eu sorri. Mas por dentro sabia que Cadu tem um talento próprio: interessa-se profundamente pelo que faz sentido para ele e ignora, com a mesma profundidade, tudo o que considera supérfluo. Nosso papel é apenas caminhar ao lado.

Conto essa história não para ostentar o orgulho paterno, embora ele exista, teimoso, mas para falar sobre viagens. Viajar com os filhos é abrir janelas que a rotina raramente permite escancarar. O dia a dia nos engole com tarefas e compromissos; e, quando vemos, deixamos de conversar sobre o livro que seu filho está lendo e que você também leu, sobre a música boa que poderia iniciá-lo em mundos cada vez mais raros, ou sobre História, Artes e Ciências que se perdem na pressa.

E há ainda o essencial: o instante em que você simplesmente para ao lado dele para ouvir o mar, sem dizer nada. Esse silêncio educa mais do que longos discursos.

Por isso, todas as minhas viagens, até mesmo as que nos levam apenas à praia, incluem um itinerário cultural, mesmo que seja gastronômico. É uma forma de ampliar o repertório, de estender o mundo diante dos olhos dele, e também uma maneira de reservar dias inteiros para estar verdadeiramente presente. Mesmo que seja para o trivial. Sobretudo para o trivial.

Hoje, olhando para trás, percebo que essa é a melhor parte de ser pai: acompanhar o crescimento de alguém que, de repente, começa a ensinar aquilo que você imaginava estar ensinando. E o resultado, acreditem, é assombroso.

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