A plataforma da estação de Barra Mansa cheirava a carvão e a despedida.
Era sábado, quinze de janeiro de 1944, e o trem para o Rio de Janeiro esperava com a impaciência das máquinas: vapor vivo, rodas paradas, como um cavalo que morde o freio. Na plataforma, a aglomeração habitual de mães e noivas e…
Fui a um funeral faz algum tempo. Ela e o esposo eram meus padrinhos de casamento. Um casal que sempre olhei como se olha para um mapa: não para copiar o percurso, mas para entender que o destino existe. Que é possível chegar.
No velório, vi o que não sabia nomear. Não era apenas dor.…
Uma especulação honesta sobre tecnologia, memória e o que chamamos de perda
Não estamos desaprendendo. Estamos deixando de precisar. E isso incomoda mais do que deveria, especialmente dentro das escolas, onde a calculadora ainda é tratada como muleta e a memorização como sinônimo de inteligência.
Meu filho reclama dos cálculos com variáveis quebradas nas provas…
Não sou do tipo emotivo. Não tenho lembranças que chegam de súbito e me fazem parar no meio de uma calçada, com os olhos marejados e uma explicação impossível para dar a quem passa. Talvez até inveje quem seja assim. Só não sou.
Mas, de vez em quando, acordo pensando na minha avó.
Faz catorze…
Se existe uma coisa que incomoda minha esposa é o assunto da minha morte. E porque sei que incomoda, a quinta série em mim teima em transformá-lo em assunto recorrente. A resposta dela é sempre a mesma: "Você não vai fazer essa desfeita pra mim, não é?" A desfeita não é morrer antes dela. É…
Sabe aquelas lembranças que o Google Fotos insiste em nos devolver como se dissesse: “Olhe o que você não viu passando”?
Outro dia apareceu um réveillon de 2022, em Búzios. Nem faz tanto tempo. Mas a fotografia denunciava outra cronologia. Meu filho tinha dez anos. Era nitidamente um menino. Mais baixo que a mãe. Rosto…
Sobre o instante em que a paternidade deixou de ser ideia e passou a pulsar no mundo real
No último domingo, depois de um almoço em família, revi fotos e vídeos antigos da gravidez de Luciane. Confesso: sou um pai coruja. Cada imagem carrega uma memória, mas há um vídeo em especial que guardo como…
João Athaíde de Castro e Melo orgulhava-se do nome que carregava. Em Porto Felicidade, ele não era apenas um sobrenome: era uma referência, quase uma unidade de medida moral. Bastava pronunciá-lo para que surgissem histórias repetidas, polidas, transmitidas como certezas, sobre o homem que dera forma à cidade quando ela ainda mal passava de um…
