Carlinho Fagundes aprendeu a nadar antes de aprender a andar de bicicleta, e aprendeu as duas coisas com o avô.
A casa da família na Rua Eduardo Junqueira tinha o trem na frente e o Rio Paraíba nos fundos. Duas presenças constantes, dois barulhos distintos que Carlinho aprendeu a separar no escuro antes de abrir…
No bairro Barbará, em Barra Mansa, as casas eram todas iguais e as mais pobres ficavam todas na beira da linha. Fileiras de casinhas de tijolo que a Metalúrgica Barbará havia construído para os operários, com o mesmo telhado, a mesma varanda estreita, o mesmo quintal pequeno que terminava onde começava o talude da ferrovia.…
Todo domingo acordo antes dos outros. Há uma ordem nisso que ninguém estabeleceu em voz alta, mas que se fixou como lei: a semana é corrida, o sábado pertence às tarefas da casa, e o domingo de manhã é nosso. Acordo mais cedo, pego o pão de queijo que preparei antes, acendo o forno, passo…
Nas Confissões, há um momento em que o jovem Agostinho se muda para Milão e encontra Ambrósio. O bispo que, sem sequer tentar, acabaria por convertê-lo e batizá-lo. É uma das cenas mais silenciosas do livro. Ambrósio não debate com Agostinho, não o persuade com argumentos, não se apresenta como mestre. Simplesmente existe com uma…
Tinha pouco mais de dez anos na primeira vez que li um livro sobre viagem no tempo. Já não me lembro o título. Só me lembro que era da coleção Vagalume e que o mundo, naqueles anos, cheirava à trilha sonora de De Volta para o Futuro. A imaginação de um menino não tem muito…
Antes de haver escrita, havia Naram.
Não é exatamente verdade. Havia escrita antes de Naram, havia contas e nomes de reis gravados em argila, havia listas de grãos e registros de débito. Mas havia Naram, e havia o que Naram sabia, e essas eram duas coisas que não precisavam uma da outra.
Ele era velho…
A plataforma da estação de Barra Mansa cheirava a carvão e a despedida.
Era sábado, quinze de janeiro de 1944, e o trem para o Rio de Janeiro esperava com a impaciência das máquinas: vapor vivo, rodas paradas, como um cavalo que morde o freio. Na plataforma, a aglomeração habitual de mães e noivas e…
Fui a um funeral faz algum tempo. Ela e o esposo eram meus padrinhos de casamento. Um casal que sempre olhei como se olha para um mapa: não para copiar o percurso, mas para entender que o destino existe. Que é possível chegar.
No velório, vi o que não sabia nomear. Não era apenas dor.…
Uma especulação honesta sobre tecnologia, memória e o que chamamos de perda
Não estamos desaprendendo. Estamos deixando de precisar. E isso incomoda mais do que deveria, especialmente dentro das escolas, onde a calculadora ainda é tratada como muleta e a memorização como sinônimo de inteligência.
Meu filho reclama dos cálculos com variáveis quebradas nas provas…
Não sou do tipo emotivo. Não tenho lembranças que chegam de súbito e me fazem parar no meio de uma calçada, com os olhos marejados e uma explicação impossível para dar a quem passa. Talvez até inveje quem seja assim. Só não sou.
Mas, de vez em quando, acordo pensando na minha avó.
Faz catorze…
Se existe uma coisa que incomoda minha esposa é o assunto da minha morte. E porque sei que incomoda, a quinta série em mim teima em transformá-lo em assunto recorrente. A resposta dela é sempre a mesma: "Você não vai fazer essa desfeita pra mim, não é?" A desfeita não é morrer antes dela. É…
Sabe aquelas lembranças que o Google Fotos insiste em nos devolver como se dissesse: “Olhe o que você não viu passando”?
Outro dia apareceu um réveillon de 2022, em Búzios. Nem faz tanto tempo. Mas a fotografia denunciava outra cronologia. Meu filho tinha dez anos. Era nitidamente um menino. Mais baixo que a mãe. Rosto…
