Meu pai costuma dizer que, quando eu era pequeno, o desconcertava com minhas perguntas.
“Por quê, pai?”
Ele conta que, às vezes, ficava irritado. Não por impaciência comigo, mas porque não conseguia responder tudo. Havia perguntas para as quais ele simplesmente não tinha resposta. E isso o deixava nu diante da minha curiosidade.
A verdade é que aquelas lacunas fizeram mais por mim do que qualquer explicação completa poderia ter feito. Quando cresci, passei a preencher meus tempos de ócio lendo uma enciclopédia antiga que tínhamos na estante da sala. Eu a abria ao acaso e seguia os verbetes como quem percorre trilhas invisíveis: de astronomia a anatomia, de história antiga a invenções modernas.
Hoje a enciclopédia virou Google. E, mais recentemente, virou inteligência artificial. A resposta não exige mais busca física nem paciência; ela aparece instantaneamente, pronta, organizada, aprofundada. A fricção diminuiu. O esforço encurtou.
Quando meu filho pergunta algo, quase nunca gosto de ficar no superficial. Se é um assunto que domino (e modestamente reconheço que domino minimamente muitos) explico com detalhes. Se não domino, digo isso com clareza: “sei pouco sobre isso”. Depois pesquiso, estudo e volto ao assunto com ele. Há um certo prazer em oferecer uma resposta mais sólida na segunda conversa.
Mas tenho me perguntado se isso é sempre o melhor caminho.
As limitações do meu pai me obrigaram a procurar. Sua incapacidade de responder tudo criou em mim uma espécie de fome. Talvez tenha sido ali que nasceu o impulso permanente de entender o mundo. A ausência de respostas prontas me ensinou a buscá-las.
Será que, ao entregar explicações completas demais, eu não reduzo no meu filho a necessidade da procura? Será que a abundância de respostas não empobrece o desejo?
Sempre ouvi que o professor memorável não é aquele que entrega tudo pronto, mas aquele que desperta a vontade de saber. A diferença é sutil: um oferece respostas; o outro cria perguntas que não deixam dormir.
Lembro-me de um episódio com minha irmã mais nova que talvez ilumine isso. Crescemos numa casa católica, rodeados de imagens sacras cuja simbologia aprendemos a reconhecer cedo: nada ali era acidental.
Um dia, ela observava uma imagem do Arcanjo São Rafael e percebeu que ele carregava um peixe. Perguntou-me o que significava aquele detalhe. Eu poderia ter explicado a história inteira: o livro de Tobias, a viagem, o pai cego, o fel do peixe que devolve a visão. Mas, talvez por pressa, talvez por intuição ou apenas por impaciência, respondi apenas que o peixe estava ligado ao livro de Tobias.
Ela franziu a testa. Não era isso que queria. Perguntou novamente. Dessa vez eu disse: “Leia o livro. Lá você entende.”
Ela leu. E foi o primeiro livro bíblico que leu inteiro, movida não por devoção, mas por curiosidade. Queria saber o que o peixe fazia ali.
Às vezes penso que aquele silêncio foi mais educativo do que qualquer explicação minha poderia ter sido.
Não porque respostas sejam ruins. Elas são necessárias. Mas porque o percurso forma mais do que o ponto de chegada.
Vivemos um tempo em que a informação está sempre disponível, pronta, detalhada, elegante. A tecnologia nos poupa da ignorância momentânea. Mas talvez também nos poupe da experiência da busca e é na busca que o pensamento se estrutura.
Talvez educar não seja negar o peixe. Nem entregá-lo limpo, sem espinhas.
Talvez educar seja apontar o rio.
