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A Ilusão da Juventude Infinita

Eu tinha quarenta anos quando isso aconteceu. Estava num açougue, numa daquelas conversas sem destino que se travam com o proprietário enquanto ele corta a carne. Um senhor que estava ali perto resolveu participar. Em algum momento soltei minha idade. O homem olhou para mim com espanto genuíno e disse: jurava que você tinha uns vinte e cinco anos.

Ri. Agradeci. E fiz o que costumo fazer: refleti.

Aquele senhor vinha de outra época. Uma época em que rostos de vinte e cinco anos carregavam uma gravidade que hoje associamos à meia-idade. De lá para cá, a medicina, a alimentação e a consciência sobre o corpo mudaram muito.

Mas a mudança mais profunda não foi essa.

Durante séculos, envelhecer significava acumular autoridade. O velho era o depositário da experiência, aquele cujas palavras tinham peso pelo tempo que carregavam. Hoje, envelhecer significa perder relevância cultural. A autoridade migrou para quem é novo, espontâneo, disruptivo. O que é antigo é suspeito. O que é jovem é, por definição, melhor.

A juventude deixou de ser uma fase da vida e virou um valor absoluto. Não se trata mais de ser jovem num determinado momento. Trata-se de permanecer jovem indefinidamente. O envelhecimento passou a ser tratado como falha a corrigir.

A origem disso não é superficial. Vivemos numa cultura que aprendeu a negar a morte, não apenas biologicamente, mas simbolicamente. Se a morte é o horizonte que dá forma à vida, recusá-la significa recusar qualquer forma. Tudo vira provisório, revisável, postergável. A juventude infinita é uma vida sem forma.

Há homens de quarenta anos que ainda tratam cada relacionamento como rascunho, porque comprometer-se seria admitir que o tempo passou e que escolhas têm peso. Ele não está sendo jovem. Está sendo incapaz de habitar sua própria vida. A leveza que ele confunde com liberdade é, na verdade, um vazio que pesa de outro jeito.

Daí vem boa parte da ansiedade que caracteriza nosso tempo. Não é a angústia de quem enfrenta algo difícil. É a angústia de quem tenta habitar simultaneamente o que foi e o que é, sem se instalar em lugar nenhum. Decisões são adiadas porque decidir é envelhecer. Vínculos permanecem frágeis porque aprofundar é assumir que o tempo passou. Projetos ficam eternamente em rascunho porque concluir é, também, uma forma de finitude.

Cada fase da vida tem uma lógica própria que só ela pode oferecer; e que se perde quando tentamos permanecer onde já não estamos. O jovem que não amadurece não preserva a juventude: perde o que vem depois. O adulto que se recusa à responsabilidade não encontra liberdade: encontra uma adolescência sem a desculpa da inexperiência. O velho que não assume o peso de sua história não rejuvenesce: apenas desperdiça o único recurso que a idade lhe dá: o sentido.

Naquele açougue, o elogio do senhor era sincero. Mas o que ficou, depois da reflexão, não foi o orgulho de parecer mais jovem. Foi a pergunta oposta: e se o mais valioso ali não fosse a aparência dos vinte e cinco, mas o que os quarenta haviam custado? Os erros, as perdas, as escolhas de que não fugi. Tudo isso não some quando o rosto não as mostra. Fica. E é exatamente isso que nos torna capazes de viver o que vem depois.

O tempo não é inimigo. É a matéria de que somos feitos. Recusá-lo não nos torna eternos. Apenas nos torna ausentes do único momento que de fato temos.

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