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A Coragem do Silêncio

Nas memórias da minha infância, a liturgia da Semana Santa tinha peso, cheiro e som. Lembro-me do aroma denso do incenso pairando no ar, do ruído oco e fúnebre da matraca que substituía os sinos festivos, e das imagens dos santos cobertas por panos roxos, ocultando a glória para revelar o luto.

Mas, de todo aquele vasto teatro litúrgico, havia uma passagem que me provocava uma inquietação profunda: a leitura da Paixão na Sexta-Feira Santa. Como podia o homem que passara três anos denunciando hipocrisias e injustiças, de repente, calar-se diante da maior injustiça de todas? Diante do sinédrio, diante de Herodes, diante de Pilatos (que reconhecia não encontrar culpa nele) Jesus permanecia em silêncio.

Para a minha mente infantil, aquilo parecia uma contradição. Parecia passividade. Parecia resignação. Como o ápice da coragem poderia se manifestar como silêncio diante do mal?

Durante muito tempo, não consegui aceitar essa imagem de um Cristo aparentemente passivo. Faltava uma chave de leitura que só encontrei bem mais tarde, ao ler São Tomás de Aquino. O Doutor Angélico ensina que a virtude cardeal da Fortaleza não consiste na ausência de medo, mas na capacidade de não permitir que o medo governe a ação moral. Em outras palavras, a coragem verdadeira não elimina o temor; ela o ordena.

São Tomás também distingue dois atos da fortaleza: enfrentar o mal e suportar o mal. À primeira vista, parece evidente que atacar exige mais coragem. Mas o filósofo medieval observa que, em muitos casos, suportar é ainda mais difícil. Atacar pode nascer do impulso, da ira ou da excitação do momento. Suportar, ao contrário, exige domínio de si, clareza moral e perseverança; a capacidade de permanecer fiel ao bem mesmo quando todas as circunstâncias pressionam na direção oposta.

À luz dessa reflexão, a cena da Sexta-Feira Santa ganha outro significado. O silêncio de Cristo não é sinal de fraqueza, mas a expressão de uma fortaleza superior. Ele não responde porque a verdade que encarna não depende de defesa teatral. A injustiça cometida contra ele não altera, por um instante sequer, sua fidelidade ao bem. Naquele tribunal, Jesus não aparece como uma vítima acuada, mas como o único homem que mantém pleno domínio sobre si mesmo.

Talvez justamente por termos perdido o contato com essa compreensão mais profunda da coragem, nossa época tenha distorcido o próprio significado da palavra. Vivemos cercados por formas de coragem performática. Nas redes sociais, nos debates políticos e nas disputas públicas, o “corajoso” costuma ser aquele que grita mais alto, humilha mais rápido ou transforma o adversário em espetáculo.

No extremo oposto, floresce outra distorção: uma tolerância que muitas vezes não passa de medo. Evita-se afirmar qualquer verdade que possa gerar conflito, como se a paz dependesse da renúncia silenciosa a toda convicção.

O contraste é revelador. A cultura contemporânea tende a associar força ao ruído, à reação imediata e à agressividade verbal. A tradição cristã, ao contrário, sempre reconheceu que a fortaleza mais elevada se manifesta muitas vezes no domínio interior; na capacidade de permanecer firme sem recorrer à violência do gesto ou da palavra.

Nesse sentido, a Paixão de Cristo continua sendo um desafio profundo para a sensibilidade moderna. Em uma cultura que acredita que toda força precisa se afirmar ruidosamente, o Evangelho apresenta uma possibilidade desconcertante: a de que a forma mais alta de coragem possa, às vezes, assumir a forma do silêncio.

Talvez por isso a Sexta-Feira Santa ainda nos incomode. Ela nos obriga a confrontar não a fraqueza de um Deus crucificado, mas a nossa própria dificuldade em suportar a verdade sem recorrer ao barulho. Por que sentimos tanta necessidade de reagir a tudo? Por que precisamos ferir para provar que somos fortes?

Se o homem mais justo da história pôde enfrentar a maior injustiça apenas com a firmeza de um silêncio invencível, vale perguntar: o que exatamente estamos tentando esconder por trás de tanto ruído?

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