Quando comecei a escrever o romance Rios de Sangue e Ouro, deparei-me com um dilema narrativo e moral. Decidi que Manuel Borba Gato seria o antagonista principal da história. A lógica parecia simples: ao narrar os acontecimentos a partir do ponto de vista dos emboabas, os paulistas, liderados por Borba Gato, naturalmente ocupariam o papel de vilões.
Alimentei essa decisão com entusiasmo. Busquei nas fontes tudo o que confirmasse essa imagem: relatos que o apresentavam como um homem brutal, capaz de violência sem medida. Ao terminar a primeira versão do manuscrito, porém, algo me incomodou. O texto soava falso. Ao reler aquelas páginas, percebi que não havia ali um personagem histórico, mas uma caricatura. Em vez de um homem, eu havia criado um monstro de papel.
Esse é um dos riscos mais sutis ao escrever sobre figuras históricas distantes e controversas: a tentação de transformar pessoas reais em símbolos. É fácil demonizar ou santificar quem já se encontra envolto em mito. No meu caso, demonizá-lo empobrecia a história; transformá-lo em herói também seria desonesto com a própria narrativa. Restava o caminho mais difícil: tentar enxergar o homem por trás da figura histórica.
Voltei então às crônicas da época. Mas desta vez não procurava o vilão que servisse ao meu enredo. Procurava o homem que havia vivido ali, entre aquelas linhas antigas. O que encontrei foi menos confortável e muito mais interessante. Surgiu um homem temperamental, implacável e violento em seus conflitos, mas profundamente ligado aos seus. Alguém capaz de brutalidade contra os inimigos e de proteção feroz à própria família e aos aliados. Não um herói, nem um demônio; apenas um homem.
Essa descoberta acabou revelando algo que vai além do romance. Percebi o quanto nossa relação com o passado costuma ser menos uma busca pela verdade e mais uma tentativa de confirmar aquilo que já acreditamos. O passado se torna uma superfície onde projetamos nossas disputas do presente. Transformamos homens falhos em heróis impecáveis ou em vilões absolutos, conforme a necessidade do momento.
Mas a realidade humana raramente se encaixa nessas molduras confortáveis. A mesma pessoa pode ser cruel e leal, brutal e protetora, violenta e amorosa. A história humana está cheia desses paradoxos. Talvez seja justamente isso que torna o passado tão desconcertante: ele nos lembra que as contradições que condenamos nos outros também fazem parte de nós.
A ficção histórica, quando levada a sério, exige esse desconforto. Obriga o escritor a abandonar a segurança das narrativas simples e a reconhecer que as pessoas do passado não eram personagens de um tribunal moral contemporâneo, mas seres humanos completos — com virtudes, falhas e escolhas difíceis.
Talvez por isso olhar para a História seja, no fundo, um exercício perigoso. Quanto mais nos aproximamos das pessoas que viveram antes de nós, menos conseguimos usá-las como espelhos convenientes para nossas certezas. Em vez disso, somos forçados a reconhecer algo mais incômodo: que aqueles homens imperfeitos, contraditórios e muitas vezes brutais não eram tão diferentes de nós.
