Uma das primeiras decisões que tomei ao escrever Rios de Sangue e Ouro, ainda nas páginas iniciais, quando a saga era apenas um esboço do que se tornaria, foi sobre os diálogos. Não sobre o que os personagens diriam. Sobre como diriam.
A intuição veio de leitor, antes de vir de escritor: diálogos numa ficção…
Já faz mais de quinze anos que o Conselho Nacional de Educação emitiu o parecer desaconselhando a distribuição de Caçadas de Pedrinho nas escolas públicas sem mediação crítica. Lembro-me da polarização que se seguiu. De um lado, intelectuais e ativistas que argumentavam que o Estado não deveria endossar, sem contraponto, textos que desumanizassem a criança…
Havia uma poltrona num canto da sala grande da fazenda onde o avô sempre sentava.
Antônio não conseguia se lembrar de tê-lo visto em outro lugar dentro de casa. No alpendre, sim, nos pastos, no curral, na varanda de tarde, mas dentro da casa era aquela poltrona, e sob ela havia um tapete gasto de…
Tudo que aprendi sobre como se escreve um romance pode ser resumido assim: primeiro você pensa a história, cria os personagens, planeja os capítulos. Só então escreve. Depois de escrito, você revisa, desconstrói, reconstrói, cria novas estruturas, revisa de novo. Um leitor crítico. Depois um leitor beta. Nova revisão, novas demolições, restaurações de estruturas que…
Antes de haver escrita, havia Naram.
Não é exatamente verdade. Havia escrita antes de Naram, havia contas e nomes de reis gravados em argila, havia listas de grãos e registros de débito. Mas havia Naram, e havia o que Naram sabia, e essas eram duas coisas que não precisavam uma da outra.
Ele era velho…
A plataforma da estação de Barra Mansa cheirava a carvão e a despedida.
Era sábado, quinze de janeiro de 1944, e o trem para o Rio de Janeiro esperava com a impaciência das máquinas: vapor vivo, rodas paradas, como um cavalo que morde o freio. Na plataforma, a aglomeração habitual de mães e noivas e…
O teto do corredor era alto demais para que os passos deixassem eco. Era essa a primeira coisa que Valéria havia aprendido sobre o Paço de São Cristóvão: a pedra ali absorvia os sons como absorve os segredos completamente, sem deixar rastro.
Ela dobrou o corredor com a bandeja equilibrada na palma direita, a cabeça…
Eu escrevi Manuel Nunes Viana como ele gostaria de ser lembrado.
Não foi intenção. Foi pior: foi desleixo intelectual disfarçado de pesquisa. Mergulhei nas fontes, encontrei as narrativas que me seduziram. O primeiro governador escolhido pelos mineradores, o defensor dos forasteiros, o líder que emergiu da vontade do povo, e escrevi o personagem que essas…
Barra Mansa, 16 de novembro de 1889. O telegrama chegou antes do sol.
O escrevente da estação dobrou o papel com cuidado excessivo antes de entregá-lo. O Barão de Guapy leu uma vez. Leu duas. Depois ficou parado na varanda com a xícara de café esfriando na mão, olhando para a rua ainda vazia, como…
Quando o personagem histórico está suficientemente morto, podemos fazer quase tudo com ele. Inventar silêncios. Preencher lacunas. Emprestar intenções que os documentos não registraram. Ninguém cobra a dívida.
Mas há personagens que não estão suficientemente mortos. Não porque ainda vivam, mas porque ainda habitam o imaginário de quem lê. Narrar esses personagens é outro tipo…
Voltei das férias de janeiro com uma lista. Não o tipo que se escreve e se esquece; o tipo que assombra. Três itens. E cada um deles, à sua maneira, acabou revelando algo que eu não esperava encontrar.
O primeiro item era concluir O Último Trem e enviá-lo às editoras. Concluí em janeiro. Em fevereiro,…
Quando comecei a escrever o romance Rios de Sangue e Ouro, deparei-me com um dilema narrativo e moral. Decidi que Manuel Borba Gato seria o antagonista principal da história. A lógica parecia simples: ao narrar os acontecimentos a partir do ponto de vista dos emboabas, os paulistas, liderados por Borba Gato, naturalmente ocupariam o papel…
