Skip to content Skip to footer

O Último Rancho

O sol deitava-se preguiçoso atrás das montanhas. O Rio Paraíba do Sul corria tranquilo naquele fim de tarde, sua voz baixa e constante misturada ao canto dos sabiás.

No rancho de taipa encostado à beira do caminho, João Ribeiro acomodou os ossos num banco de tronco e tirou o chapéu de couro surrado. Tinha cinquenta e três anos vividos nas estradas, a tez curtida pelo sol de mil serras, os dedos grossos de tanto puxar rédea e amarrar cargas. Ao seu redor, sete homens de semblantes cansados formavam o semicírculo costumeiro do fim de jornada, cada qual com sua cuia de cachaça ou seu caneco de café escuro.

À sua direita, Benedito Cardoso, o mais velho dos tangerinos, mulato corpulento que raramente falava e nunca errava o passo. Do outro lado, Zeferino das Almas, mameluco de pele acobreada que sabia falar com as mulas em dois idiomas — e as mulas entendiam. No canto mais escuro do rancho, Isaías, que todos chamavam de Preto Isaías sem nenhuma malícia, homem livre de pele retinta que carregava no lombo cicatrizes que nunca comentava. Os outros quatro — Antônio, Maneco, Cláudio e Francisco — completavam o círculo sem enfeites.

— Chegou carta do filho mais velho — disse João, sem preâmbulo. — O Teodoro. Tá bem estabelecido lá na venda em Resende.

Benedito Cardoso assoprou o café.

— Bom pra ele — disse, sem ironia.

— E o Inocêncio abriu armarinho em Barra Mansa, perto da Igreja Matriz. Vende linha, botão, tecido inglês. — João pausou. — Veio de trem, o tecido. Tudo veio de trem.

Ninguém falou. O rio corria lá embaixo.

— Os meus netos tão na turma do engenheiro inglês — continuou João. — Cravando dormentes. Construindo a ferrovia.

— A ferrovia que vai comer o nosso pão — disse Antônio, baixinho, o ruivo, filho de um tropeiro morto de febre na Serra.

— Não é bem comer — disse Francisco Ventura, o mais jovem, que mal aparava bigode. — Vai ter transporte das fazendas até as estações. Esse trabalho ainda é nosso.

Isaías soltou um som curto. Podia ser riso.

— Trabalho de carroceiro, esse — disse Benedito, sem levantar os olhos do caneco. — Qualquer um com um burro velho faz.

— Ainda não chegou em Barra Mansa — insistiu Francisco.

— Chega em cinco anos. O Visconde prometeu. — João olhou para o mais jovem com a paciência de quem não quer machucar, mas não vai mentir. — E o Visconde cumpre o que promete.

Silêncio entre os sete homens.

João Ribeiro olhou para as mulas nos piquetes. Ficou olhando por mais tempo do que era necessário.

— Meu bisavô, Cipriano Ribeiro — começou ele —, fazia o transporte lá pelos sertões da Mantiqueira. Levava sal, levava ferro, levava pano pros garimpeiros. Trazia ouro, trazia cartas e novidades. Era um mundo fechado no mato, mas era um mundo.

Maneco Fogueira tragou o cachimbo e soltou a fumaça devagar.

— Quando o ouro secou, foi pro café — disse, sabendo a história de cor.

— Meu avô Felicíssimo leu o vento. Embalou a família e foi pra Vila de Resende, recém-criada. E lá ficou. Meu pai, Damião Ribeiro, foi senhor de muitas tropas. Conhecia cada pouso, cada passagem da Serra do Mar. Comprava muar em Sorocaba. Ia ele mesmo, porque não confiava em ninguém pra escolher animal bom. Dizia que uma mula era como um funcionário: você precisa ver o olho dela pra saber se vai prestar.

Risos pelos sete homens.

— Enriqueceu no Caminho de São João Marcos. Descia carregado de saca, subia de volta com sal, com óleo de baleia, com novidade do mundo. Às vezes trazia jornal. As fazendas esperavam o tropeiro como se esperava carta de parente distante.

— Porque era o tropeiro que trazia o mundo — disse Zeferino das Almas, devagar.

João apontou o queixo para ele. Era isso.

— Hoje um trem leva mais café do que cinquenta mulas. E não para pra contar novidade pra ninguém.

Francisco Ventura mexeu no fogo.

— Mas o trem não conhece o caminho no escuro — disse ele. — O trem precisa de trilho. Nós não.

— É isso mesmo — disse João, e havia no tom alguma coisa que não era concordância. — Nós não precisamos de trilho. Nós sabemos o caminho no escuro porque o caminho mora dentro da cabeça da gente. Desde menino. — Ele calou por um instante. — Só que ninguém vai mais precisar desse caminho.

Ninguém respondeu.

Maneco Fogueira olhou para as brasas.

— Culpa dos fazendeiros — disse ele, sem raiva particular, como quem constata o tempo. — Assim que viram que o trem era mais barato, largaram a tropa e não olharam pra trás. Nem agradeceram.

— O fazendeiro não tem culpa de querer ganhar mais — disse Benedito Cardoso.

— Tem culpa de fingir que nunca dependeu de nós — respondeu Maneco.

João Ribeiro colocou o chapéu de volta na cabeça e ficou assim, chapéu na cabeça, olhando as mulas.

Cláudio Peixoto que passara a noite inteira sem abrir a boca, falou devagar:

— Minha mãe era índia do sertão. Meu pai disse pra mim que quando o branco chegou, o mundo dela também acabou assim. Devagar, sem barulho. Sem que ninguém pedisse licença.

Ficou no ar.

O fogo crepitou. As mulas se mexeram nos piquetes. Lá fora, o Paraíba do Sul correu no escuro como sempre correra, indiferente aos homens que vinham e iam pelas suas margens.

— Amanhã cedo — disse João, por fim, com a voz de quem encerra uma missa. — Quatro da manhã. Temos café pra levar em Barra do Piraí.

Os homens se levantaram devagar, esticaram os ossos, foram cada um para seu canto de palha e cobertor.

João Ribeiro ficou sozinho por mais um tempo, olhando o rio que ele não conseguia ver; só ouvir.

O rio não sabia de nada. E talvez fosse por isso que continuava.

Deixe um comentário