Existe uma cena banal que ainda me enche de alegria toda vez que se repete. Ela está na pia, lavando a louça ou preparando algo. Chego silenciosamente por trás, às vezes a toco, outras vezes nem preciso. Basta falar em seu ouvido, em voz baixa. Imediatamente sinto o arrepio percorrer o corpo dela, como uma corrente que atravessa o que somos juntos.
Depois de mais de quinze anos de casados, ainda considero isso uma graça.
Mas essa cena pequena me leva a um pensamento mais longo: como a intimidade se transforma ao longo dos anos, e o que, afinal, sustenta o desejo quando a novidade já não é mais possível?
Antes do casamento, essas sensações viviam de outra coisa. O desejo se alimentava da ausência. Embora nos víssemos quase todos os dias, o fato de habitarmos vidas separadas (casas separadas, rotinas separadas) preservava um certo mistério entre nós. A cada reencontro, o que havia sido represado se liberava com a força de algo que esperou o tempo certo. Havia intensidade. Havia aquele frio na barriga quando ela cruzava a esquina em minha direção, e eu não sabia ainda o que ela diria, como estaria, o que traria nos olhos.
O casamento alterou essa geometria. Com ele veio a estabilidade e com a estabilidade, a rotina. A rotina é, à primeira vista, a antítese do desejo. Tudo se torna previsível: os horários, os gestos, até os silêncios. A novidade, que antes alimentava a paixão, deixa de existir como possibilidade cotidiana.
E aqui mora o grande engano sobre o amor conjugal.
Há uma crença corrente de que o amor maduro simplesmente substitui a paixão pelo companheirismo. Que os anos transformam os amantes em sócios afetivos: duas pessoas que dividem um apartamento com benefícios eventuais. Essa visão não é apenas cínica: é também falsa. Ela confunde a mudança de forma com a extinção da chama.
A paixão não desaparece com o tempo. Ela aprende a sobreviver de outro modo. Não mais pela ausência do outro, mas pela presença. Uma presença que, quando se adensa em anos vividos juntos, cria algo que a novidade jamais poderia oferecer: o reconhecimento. Não a familiaridade entorpecente, mas o reconhecimento profundo de quem o outro é, do que carrega, do que oculta, do que ainda surpreende.
O desejo, quando maduro, não precisa mais da distância para existir. Ele aprendeu a morar dentro do que é cotidiano e por isso é mais livre, não mais fraco.
O arrepio que ela ainda sente quando sussurro em seu ouvido não é resíduo de uma paixão antiga que teimou em sobreviver. É outra coisa: é o desejo que aprendeu uma nova linguagem. Não mais a linguagem da falta, mas a da memória partilhada, dos gestos que já não precisam ser explicados, da cumplicidade que se construiu (imperceptivelmente) em cada refeição, em cada silêncio tolerado, em cada desentendimento superado.
A paixão jovem é uma faísca: brilhante, intensa, efêmera por natureza. O amor que dura é uma brasa; menos vistoso, mais fundo, capaz de aquecer mesmo quando ninguém mais o observa.
Penso nisso quando fico parado na cozinha, observando-a de costas, sem que ela perceba. Há algo nessa cena ordinária (a louça, a luz da tarde, o jeito como ela inclina a cabeça) que condensa tudo o que aprendi sobre o amor. Não aprendi em livros, nem em grandes gestos. Aprendi na repetição fiel de uma cena banal, que só tem sentido porque é dela, e porque é minha, e porque ainda nos perturbamos mutuamente depois de tudo que vivemos.
A paixão não acabou. Ela apenas trocou a forma pelo símbolo. E os símbolos, quando verdadeiros, duram mais do que qualquer novidade.
O desejo que sobrevive ao tempo não é o que resistiu à rotina. È o que aprendeu a habitá-la.
