Acordo cedo. Sempre. Antes que a casa acorde, antes que o dia apresente suas cobranças, há alguns minutos em que o quarto ainda pertence ao silêncio. É nesse intervalo que eu a olho dormir. E é nesse mesmo intervalo que a pergunta volta. Não como sobressalto, mas como uma voz baixa que já conheço: até…
Existe uma cena banal que ainda me enche de alegria toda vez que se repete. Ela está na pia, lavando a louça ou preparando algo. Chego silenciosamente por trás, às vezes a toco, outras vezes nem preciso. Basta falar em seu ouvido, em voz baixa. Imediatamente sinto o arrepio percorrer o corpo dela, como uma…
Era maio de 2040, e o entardecer caía sobre o bairro como alguém que desiste.
Márcio caminhava devagar, as mãos nos bolsos, os olhos percorrendo fachadas que já foram orgulho de alguém. Restavam as marcas. A moldura de uma janela trabalhada em pedra, um portão de ferro com iniciais forjadas, uma calçada de mosaico português…
Você já jogou xadrez?
As regras são antigas. As peças mudam de mão, os jogadores mudam de geração, mas a gramática permanece. Isso cria estabilidade: ninguém precisa reaprender o mundo a cada partida.
Agora imagine sentar-se diante do tabuleiro e perceber que ele não pertence mais a você.
Durante séculos, o jogo de sedução entre…
