O Peso dos Braços Cruzados

Barra Mansa, 16 de novembro de 1889. O telegrama chegou antes do sol.

O escrevente da estação dobrou o papel com cuidado excessivo antes de entregá-lo. O Barão de Guapy leu uma vez. Leu duas. Depois ficou parado na varanda com a xícara de café esfriando na mão, olhando para a rua ainda vazia, como se esperasse que alguém passasse e lhe explicasse o que o papel dizia.

Ninguém passou.

Às três da tarde mandou recado ao Barão Ribeiro de Almeida e ao Barão de Amparo, que tratavam de negócios na cidade. Havia os encontrado no dia anterior, e sabia onde encontrá-los. Ao Major José Bento mandou um moço de recado até a fazenda dele, do outro lado do rio. O Major, sendo o Major, chegou primeiro.

Atravessou o Paraíba e entrou na sala ainda com as botas enlameadas, sem pedir desculpa. Tinha sessenta e seis anos e a postura de quem ainda esperava que o mundo fizesse algum sentido.

— Já sei, — disse, antes que o Barão de Guapy abrisse a boca. — Li o telegrama na estação. — Tirou as luvas. — O trem das seis parte para a Corte. Se sairmos agora, chegamos antes da manhã. Há homens em Resende. Há homens em Pinheiros. Só precisamos de uma palavra, Joaquim.

O Barão de Guapy não respondeu. Seus dedos tocaram o pires, giraram a xícara alguns milímetros, como se alinhassem algo invisível.

— Uma palavra, — repetiu o Major, e havia naquele acréscimo algo que não era súplica. Era advertência.

O Barão Ribeiro de Almeida chegou em seguida, com o Barão de Amparo. Vinham juntos. A cidade já murmurava, e os dois haviam murmurado junto com ela pelo caminho. Ao entrarem na sala e encontrarem o Major de pé, perceberam que a reunião havia começado antes de começar.

O Barão de Guapy serviu o vinho. Só então falou.

Falou do Conde d’Eu, que se movia. Da Marinha Imperial, que ainda tinha homens. Das embarcações que partiam da Corte e parariam em Salvador para aguardar notícias. Falou de aristocratas em todo o Vale, e em São Paulo, e em Minas, organizando forças para chegar de trem antes o quanto antes. A resistência, disse ele, poderia ser vitoriosa. O Imperador poderia voltar.

— Mas o Imperador recusa, — acrescentou. — Recusa-se a que se derrame sangue por ele. O que recebo não é uma convocação oficial. É uma rede de influência do Conde d’Eu, com ajuda da Marinha. Quem quiser agir, age por conta própria.

Silêncio.

O Major pousou o cálice na mesa com mais força do que pretendia.

— Por conta própria é como se age quando o soberano é fraco. — Ficou de pé. — Mas há um trem. Há homens. O Barão de Rio Negro e o Visconde de Barra Mansa estão na Corte — se Joaquim Gomes mandar palavra aos irmãos esta noite, eles agem. — Virou-se para o Barão de Amparo. — Você tem o que? Vinte homens nas Palmas que ainda prestam?

— Tenho doze, — disse o Barão de Amparo, sem calor. — E devo o mês passado.

— Doze mais os meus são trinta. Trinta mais Resende são oitenta. — O Major abriu as mãos. — Oitenta homens no trem das seis chegam ao Rio com a resistência, não depois dela. Não estou pedindo que lutem. Estou pedindo que apareçam.

— Aparecer já é lutar, — disse o Barão Ribeiro de Almeida, devagar. — E lutar, neste caso, é escolher o lado derrotado antes do primeiro tiro.

Joaquim Leite fez uma pausa curta antes de continuar.

— Há derrotas que começam como lealdade e terminam como estupidez.

— Não acabou, — disse o Major.

— Acabou ontem, — disse Joaquim Leite.

O Barão de Amparo levantou-se e foi à janela. Lá fora, a rua estava quieta. Dois homens conversavam na esquina; um deles riu de algo. A cidade não sabia ou fingia não saber.

— Eu vou lhes dizer o que tenho, — falou ele, sem se virar. — Tenho a Fazenda das Palmas, que comprei por trezentos contos e que não produz um quarto do que devia produzir. Tenho a Santana do Turvo, que meu pai construiu com duzentos e cinquenta escravos e que agora meu irmão não consegue manter com nenhum. Tenho dívidas com o Banco do Brasil e com um comerciante em Vassouras cujo nome não preciso mencionar. — Voltou-se. — E o senhor me pede para colocar doze homens a quem eu devo salário num trem para a Corte, para morrer numa guerra civil que o próprio Imperador recusou?

— Não para morrer. Para mostrar que existimos.

— Já mostramos que existimos. Construímos este país. — A voz de Joaquim Gomes não subiu, o que era pior do que se subisse. — O país acabou de nos dizer que prefere dispensar nossa contribuição. Eu não vou gastar o que não tenho para convencer quem não quer ser convencido.

O Major olhou para o Barão de Guapy. Era a ele que a pergunta sempre voltava, porque era ele o mais velho, porque era ele quem havia convocado a reunião, porque a casa era dele.

— Joaquim.

Na parede, acima do aparador, um retrato antigo do Imperador observava a sala com uma calma que não exigia resposta. O Barão de Guapy ergueu os olhos até ele, como se medisse a distância entre o que fora e o que ainda era possível. Abriu a boca. Fechou-a.

O relógio marcou uma batida seca.

— O trem das seis, — disse finalmente. — Já passou das cinco.

O Major não respondeu. Pegou as luvas da mesa. Não as vestiu. Apenas as segurou, como se ainda estivesse decidindo alguma coisa. Depois guardou-as no bolso e foi até a porta.

— Vou atravessar o rio, — disse, com as costas para eles. — Se alguém mudar de ideia antes do amanhecer, sabe onde me encontrar.

Saiu. Ouviram as botas no corredor de pedra, depois a porta da rua, depois nada.

Os três ficaram. O vinho estava morno. Nenhum deles disse mais nada sobre resistência, sobre trem, sobre homens. Joaquim Leite comentou que o tempo havia melhorado. Joaquim Gomes concordou.

Lá fora, o Doutor José Hipólito de Oliveira Ramos passeava pela calçada em frente à farmácia com uma lentidão calculada. O passo de quem quer ser visto, mas não quer parecer que quer. Havia sido monarquista durante a maior parte da vida. Tornara-se republicano tarde demais para ter mérito nisso, e cedo o suficiente para não ter de fingir surpresa.

Era exatamente o tipo de homem que a República precisava para existir.

O Barão Ribeiro de Almeida e o Barão de Amparo saíram juntos, como haviam chegado. O Barão Joaquim José Ferraz de Oliveira ficou sozinho na sala.

O relógio na parede marcava seis e um quarto. O trem havia partido.

Ele foi até a janela (a mesma onde o Barão de Amparo havia ficado) e olhou para a rua. Os dois homens da esquina já não estavam. A cidade havia engolido o dia como engolia todos os dias, sem perguntar o que havia acontecido antes.

Apagou o lampião.

Os impérios não morrem de traição. Morrem de indiferença dos que tinham algo a perder.

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