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A Diferença entre Crer e Viver

A memória mais antiga que tenho com a religião não é de uma ideia. É de um cheiro. O perfume pesado de velas numa tarde de domingo, e a mão da avó do meu pai segurando a minha com uma firmeza tranquila, como quem não precisa explicar onde está nem para onde vai. Eu devia ter menos de cinco anos. Não entendia palavra do que o padre dizia. Mas entendia que aquilo era sério. Que ela era séria. E que eu era bem-vindo naquela seriedade.

Ela se foi há muito tempo. Depois veio minha mãe, que nos levou à missa por mais de vinte anos ininterruptos. Até que eu me casei e comecei a repetir essa história com minha própria família. A fé, entre nós católicos, viaja assim: de mão em mão, de domingo em domingo, quase sem que se perceba.

O problema é que essa transmissão, sendo o caminho mais comum, é também o mais perigoso. Porque a fé herdada que não desce até o âmago do ser não é fé; é crença. E a diferença entre as duas não é de grau. É de natureza.

A crença é uma adesão intelectual a uma proposição. Posso crer que o universo tem mais de treze bilhões de anos sem que isso altere meu modo de viver. Posso crer que fumar faz mal sem apagar o cigarro. A crença habita a cabeça. A fé, quando genuína, desce mais fundo. E quando chega lá, mexe com tudo.

Vejo isso com nitidez nas missas, nas procissões, nos grupos de oração. Pessoas que recebem sacramentos há décadas, que sabem de cor os mistérios do rosário, que conhecem o calendário litúrgico melhor do que o próprio pároco e que saem da missa exatamente iguais ao que entraram. As ideias foram aceitas. A vida não foi reorganizada. Isso tem um nome: não é fé. É devoção folclórica.

Tinha dezesseis anos quando li o Gênesis com atenção pela primeira vez e descobri que Abraão não era um homem de certezas. Era um homem de entrega.

Deus lhe prometera uma descendência como as estrelas do céu. Sara era estéril. Idosa. Havia muito que seu corpo não conhecia ciclos. Do ponto de vista racional, a promessa era impossível. Abraão sabia disso melhor do que ninguém. E ainda assim, acreditou. Não apenas com a cabeça. Acreditou com o corpo inteiro, com o futuro inteiro, com a lógica radicalmente invertida de quem confia em algo maior do que aquilo que consegue ver.

E quando Isaac nasceu (quando o impossível se cumpriu), Deus pediu de volta o filho. E Abraão foi. Não porque não amava Isaac. Precisamente porque amava. A fé de Abraão não era uma ideia bonita sobre Deus. Era uma relação que havia sido testada no carvalho de Mambré, nas areias entre Ur e Canaã, na tenda onde Sara riu da promessa e que sobreviveu a todos esses testes.

Segundo São Tomás de Aquino, a fé é um ato do intelecto movido pela vontade sob a ação da graça. Não é irracionalidade. É razão que aceita ser conduzida além de si mesma. É o homem que se coloca diante de Deus não como espectador, mas como alguém que responde.

A Carta aos Hebreus diz com precisão insuperável: a fé é um modo de já possuir o que ainda se espera, a convicção acerca de realidades que não se veem. Não é opinião. Não é preferência. É uma forma de existir no tempo, voltado para o que ainda não chegou, mas que se trata como real.

Por que isso importa hoje? Porque vivemos numa cultura em que a fé virou sinônimo de opinião pessoal. Sou eu que determino o que vou acreditar dentro da minha fé. Escolho os dogmas confortáveis, rejeito os incômodos, e chamo a esse arranjo de espiritualidade. A frase “sou católico, mas…” quase sempre precede a rejeição de algo central. Não de algo periférico, não de uma questão disciplinar, mas de algo que desafia, que exige, que transforma.

Padre Antônio Vieira, no Sermão da Sexagésima, disse a seus ouvintes com uma honestidade que poucos pregadores têm coragem de imitar: que antigamente eles saíam do sermão muito contentes do pregador, e que agora ele queria desenganá-los tanto que saíssem muito descontentes de si mesmos. Essa é a diferença entre conforto espiritual e confronto espiritual. E a fé verdadeira pertence à segunda categoria.

Se o objetivo da missa for sair sentindo-se mais leve e mais feliz, melhor nem ir. Há um desconforto real em colocar-se diante de si mesmo. Em reconhecer as próprias misérias sem a proteção da autoindulgência. Se isso não está acontecendo, algo está errado. Com você, com quem prega, ou com ambos.

Sempre que penso na distinção entre crença e fé, lembro de Zaqueu. Aquele homem baixinho que subiu numa árvore para ver Jesus passar. Não para ser visto, não para se destacar. Para ver. Jesus levantou os olhos, encontrou-o entre as folhas e não pronunciou um discurso. Não exigiu arrependimento público. Apenas disse seu nome e anunciou que estaria em sua casa naquele dia. E Zaqueu desceu.

Desceu e anunciou, sem que ninguém pedisse, que restituiria em quádruplo a todos que havia lesado e doaria metade de seus bens aos pobres. Não porque entendeu uma doutrina. Porque foi visto. Porque foi chamado pelo nome. Porque a presença de Cristo reorganizou, em segundos, a hierarquia inteira de sua vida.

Isso é fé. Não a emoção fugaz de um domingo bem cantado. Não a satisfação intelectual de uma homilia bem elaborada. É a reorganização da existência a partir de um encontro que não se consegue ignorar.

A fé comporta três realidades inseparáveis: a racional, que aceita o que não pode ser inteiramente provado; a volitiva, que escolhe agir a partir disso; e a existencial, que não consegue mais viver como se esse encontro não tivesse acontecido. Quando as três estão presentes, não se precisa perguntar se a fé é real. Ela já mudou o endereço de você mesmo.

Quem foi chamado pelo nome não desce da árvore para continuar igual.

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