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As Cores da Infância

A Fazenda da Posse, sob o sol generoso que banhava o Vale do Paraíba, era um mundo em si, pulsante com a vida em suas mais diversas formas. Para Joaquim, aquele universo se desdobrava em uma sinfonia de experiências sensoriais, um aprendizado constante que ia além dos livros e das lições formais.

As manhãs, despertadas pelo canto vibrante dos pássaros e o aroma do orvalho sobre a vegetação, pertenciam à liberdade. Joaquim, com a energia transbordante dos seus seis anos, lançava-se em aventuras sem fim, acompanhado de sua pequena trupe de companheiros.

Teresa de Carvalho, a filha de Isabel e Baltasar, era sua sombra constante, uma menina de dois anos com a vivacidade de um raio de sol. Seus cabelos escuros, emoldurando um rosto miúdo e expressivo, refletiam tanto a travessura quanto uma inteligência precoce. Pedro, o filho do ferreiro, era a força bruta do grupo, um garoto robusto e destemido, com mãos calejadas e um sorriso largo. Mariana, a filha do tecelão, trazia a curiosidade e a inventividade, sempre com uma pergunta na ponta da língua e uma ideia mirabolante na cabeça. E Antônio, o filho do carpinteiro, completava o quarteto com sua calma e observação atenta, absorvendo o mundo ao seu redor com um silêncio contemplativo.

Juntos, eles transformavam os campos da fazenda em um reino encantado. As árvores se tornavam castelos, as colinas, montanhas a serem escaladas, e os riachos, rios caudalosos a serem atravessados. Construíam fortes improvisados com galhos e cipós, defendendo-os de inimigos imaginários com a bravura de guerreiros lendários. Caçavam tesouros escondidos, seguindo mapas desenhados em folhas de bananeira, desenterrando pedras coloridas e sementes brilhantes. E disputavam corridas acirradas pelos campos de milho, o vento chicoteando seus rostos e o sol aquecendo suas costas.

As tardes, após o almoço farto e o breve descanso, eram dedicadas às cavalgadas. Francisco, um mestre na arte de domar cavalos, ensinava Joaquim os segredos da montaria com paciência e firmeza. O menino adorava a sensação de liberdade ao galopar pelos campos, o vento uivando em seus ouvidos e o mundo se estendendo diante de seus olhos. Sentia-se uno com o animal, compartilhando sua força e agilidade.

Muitas vezes, Francisco o levava para explorar as estradas que serpenteavam pela fazenda e além, desvendando os mistérios da região. Contava-lhe as histórias dos colonos que ali viviam, suas lutas e esperanças. Francisco narrava lendas de tesouros escondidos, de rios encantados e de espíritos da floresta, alimentando a imaginação fértil de Joaquim.

As noites, após o jantar farto e as orações em família, eram o tempo das histórias. Ao redor das velas de sebo, enquanto o fogo crepitava e lançava sombras dançantes nas paredes, Luiza, a mucama de olhos sábios e voz melodiosa, tecia narrativas que cativavam a todos.

Havia contos de príncipes e princesas, de animais falantes e de heróis corajosos, transportando Joaquim para mundos distantes e fantásticos. Mas as histórias que mais o fascinavam eram as da Mãe de Ouro, uma figura lendária que povoava a imaginação popular.

Luiza descrevia a Mãe de Ouro com riqueza de detalhes: uma mulher de beleza sobrenatural, vestida de ouro da cabeça aos pés, com cabelos que brilhavam como o sol e olhos que refletiam a sabedoria ancestral da terra. Segundo a lenda, ela protegia as riquezas do solo, guiando os viajantes perdidos nas noites de lua cheia e punindo os gananciosos que buscavam explorar a terra de forma desonesta. Joaquim ouvia as histórias com os olhos arregalados, o coração pulsando com a emoção do mistério e da aventura.

E havia, é claro, as pescarias no Rio Paraíba do Sul, um ritual que Joaquim apreciava profundamente. Acompanhava Francisco e os outros homens da fazenda até as margens do rio, levando consigo sua pequena vara de bambu e um balde. Passavam horas lançando suas iscas e esperando pacientemente pelo peixe, compartilhando histórias e risadas.

A tranquilidade do rio, com suas águas calmas e o suave balanço do barco, criava um ambiente de paz e harmonia. Joaquim adorava observar a natureza ao seu redor, os pássaros que cruzavam o céu, os peixes que saltavam na superfície da água e as margens verdejantes que se estendiam até onde a vista alcançava.

Em uma dessas pescarias, enquanto o sol se punha no horizonte, pintando o céu com pinceladas de laranja, roxo e dourado, Joaquim teve uma experiência que o deixou intrigado e curioso.

Na margem oposta do rio, em meio à vegetação densa e exuberante, ele avistou um grupo de crianças. Eram diferentes das crianças que ele conhecia. Seus corpos eram pintados com desenhos intrincados, utilizando tintas naturais em tons vibrantes de vermelho, preto e branco. Seus cabelos escuros eram adornados com penas coloridas e flores silvestres. E seus olhos, escuros e penetrantes, brilhavam com uma intensidade selvagem.

As crianças brincavam e pescavam com arcos e flechas, demonstrando uma agilidade e precisão impressionantes. Moviam-se com a leveza e a graça de animais da floresta, seus corpos nus e bronzeados refletindo a luz do sol.

Joaquim, tomado por uma curiosidade irresistível, acenou para as crianças, tentando chamá-las para perto. Queria saber quem eram, de onde tinham vindo e por que eram tão diferentes dele e de seus amigos.

Mas quando as crianças o viram, seus olhos se arregalaram em surpresa e medo. Um murmúrio estranho e musical escapou de suas bocas, e, sem dizer uma palavra, viraram-se e correram para dentro da floresta, desaparecendo entre as árvores como se fossem sombras. A vegetação densa os engoliu, e em questão de segundos, não havia mais nenhum sinal de sua presença.

Joaquim ficou perplexo. A visão foi tão rápida e misteriosa que ele se perguntou se não havia sido apenas um truque de sua imaginação. Mas a imagem das crianças pintadas, com seus arcos e flechas, permanecia vívida em sua mente, alimentando sua curiosidade e despertando um novo mundo de perguntas.

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