Era sexta-feira. Daquelas em que o relógio conspira contra a saída e o escritório vai perdendo a seriedade de si mesmo. Das mesas vizinhas escapava Fábio Jr. Amores eternos, promessas, despedidas. Duas colegas cantarolavam o refrão, animadas com o show do dia seguinte. A cena tinha algo de adolescente, de caderno escolar e confissões no corredor.
Até que uma terceira voz cortou tudo:
— Que coisa mais cafona!
Não pensei. Respondi antes de querer responder, talvez mais para mim do que para ela:
— Todas as cartas de amor são ridículas.
O silêncio foi imediato. Olhares curiosos. Completei: Fernando Pessoa escreveu isso. Mas também escreveu que só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas. A sala ficou quieta um instante a mais do que o necessário. E nesse instante soube que havia tocado em algo que não era sobre Fábio Jr.
O ridículo do amor não é seu defeito. É sua prova.
A autoconsciência é a conquista mais cara da modernidade e talvez seu maior empecilho afetivo. Aprendemos a nos observar de fora: como soamos, como parecemos, se estamos sendo inteligentes ou ingênuos, sofisticados ou exagerados. Essa vigilância constante produz pessoas lapidadas, versões sóbrias e aceitáveis de si mesmas, cada vez mais eficientes e cada vez menos espontâneas. O problema é que o amor exige justamente o contrário do que essa vigilância oferece.
O amor exagera. Faz declarações desnecessárias. Escreve mensagens longas às três da madrugada. Compra presentes inadequados. Sorri sem motivo. Sofre sem proporção. Quando somos jovens, não questionamos esse excesso. Simplesmente o habitamos, porque a identidade ainda está se formando e o outro ainda é revelação. Com o tempo, aprendemos a controlar. A conter. A não parecer. E o que chamamos de maturidade, às vezes, é apenas a capa elegante de uma retirada.
Existe uma diferença que vale nomear: o ridículo nasce do excesso de verdade. O falso, da ausência dela. Confundir os dois é o equívoco que nos empobrece, porque ao evitar o ridículo, frequentemente o que evitamos é a verdade.
Há uma cena que Pascal conhecia bem, embora não a descrevesse nesses termos: o homem incapaz de ficar quieto no próprio quarto. O entretenimento como fuga da consciência de si. O que a modernidade adicionou a esse quadro foi mais sofisticado: a fuga não é só do silêncio, mas da exposição. Vivemos numa cultura em que ser visto sentindo é mais perigoso do que não sentir. Ironia e distância tornaram-se os idiomas do prestígio. Quem chora num show de Fábio Jr. precisa se justificar. Quem não chora, não.
O filósofo Byung-Chul Han diagnosticou a sociedade contemporânea como uma sociedade da transparência que, paradoxalmente, produz opacidade afetiva. Exigimos visibilidade de tudo (dados, processos, resultados) e ao mesmo tempo construímos camadas de ironia para tornar invisível o que sentimos. A transparência que importaria, a do coração, é precisamente a que mais resiste. Porque sentir em público implica risco. E o risco, para uma cultura obcecada com a gestão da imagem, é a ameaça mais séria que existe.
Há uma ilusão curiosa por trás disso. Imaginamos que a contenção nos protege. Não protege: empobrece. A mesma barreira que impede a humilhação também impede a intimidade. Quem não quer correr o risco de parecer ridículo diante do amor também não consegue experimentar plenamente a alegria dele. As duas coisas chegam juntas ou não chegam. Não existe intensidade emocional sem vulnerabilidade. Não existe vulnerabilidade sem possibilidade de constrangimento. Quem recusa o segundo recusa também o primeiro.
Isso tem uma dimensão existencial que o cotidiano empurra para debaixo do tapete. No fim da vida, raramente nos arrependemos dos sentimentos que expressamos. O arrependimento costuma habitar outro endereço: os abraços que não demos, os pedidos de perdão que ficaram na garganta, as palavras que julgamos inconvenientes e engolimos. É difícil encontrar alguém que diga que o maior erro foi ter amado demais. Mas é muito comum encontrar quem diga: eu deveria ter dito.
Quando alguém diz “eu te amo”, está se colocando numa posição de risco calculável. Pode não ser correspondido. Pode ser rejeitado. Pode ser considerado exagerado ou fora de hora. Mas há uma dignidade profunda nesse risco: a dignidade de quem entende que o amor só existe plenamente quando deixa de ser estratégia e se torna entrega. A declaração não é ingênua. É corajosa. E a coragem, ao contrário do que a modernidade calculista sugere, não é a ausência do medo de parecer ridículo. É a decisão de continuar mesmo assim.
Naquela sala, enquanto Fábio Jr. cantava e as colegas cantavam junto, havia algo acontecendo que a voz cortante quis interromper: a suspensão momentânea da autoconsciência. O raro instante em que alguém para de se observar de fora e simplesmente está ali, dentro do que sente, sem se perguntar como está parecendo. São esses instantes que tornam a vida memorável. Não os momentos em que fomos impecáveis. Os momentos em que fomos verdadeiros.
Ninguém propõe viver sob a tirania das emoções. A razão existe para guiar. Mas quando ela domina a ponto de silenciar o coração, o que resta não é maturidade; é anestesia. E uma vida anestesiada talvez evite o ridículo, mas perde exatamente aquilo que faz a existência valer ser contada.
Entre o ridículo e o cafona, fico com a melodia desafinada e o gesto exagerado. Com a carta escrita de madrugada e o refrão cantado no trabalho. Porque é ali, naquilo que envergonha os céticos, que a vida acontece de verdade. E porque o verdadeiro ridículo nunca foi amar demais. Foi atravessar o mundo inteiro sem uma vez se permitir isso.
