Outro dia, no meio de uma crônica, parei numa frase.
Era uma frase boa. Dizia com precisão o que eu queria dizer, encaixava no argumento, tinha o peso certo. Eu a escrevi sem hesitar, como se fosse minha. Só depois, relendo, senti que havia algo fora do lugar. Não na frase. Na autoria. Fiquei parado diante dela tentando responder uma pergunta simples: aquela convicção era minha ou era de outra pessoa?
Não consegui responder com certeza. E essa incerteza me abriu algo.
Frequentemente cito minhas conversas com Cadu como pontos de partida das minhas reflexões. O que não digo (o que nunca disse de forma explícita) é que essas conversas raramente ficam no ponto de partida. Elas se desenvolvem. Ele traz algo, eu trago algo, e o que emerge não pertence inteiramente a nenhum dos dois.
Cadu tem contribuições que entram no meu pensamento de formas que nem sempre consigo rastrear. Às vezes é uma pergunta que ele faz que desestabiliza uma certeza que eu tinha sem saber que tinha. Às vezes é uma posição com a qual eu discordo tão vivamente que preciso elaborar o porquê e nessa elaboração descubro algo que não saberia dizer antes do atrito. Às vezes é simplesmente a maneira como ele vê uma coisa, e a maneira como ele vê me lembra que eu estava vendo de um ângulo só.
Sem que ele saiba, Cadu anda escrevendo comigo minhas crônicas, mesmo sem ter teclado uma única palavra, sem ter tecido uma única frase.
Se o que escrevo tem algo de outros, isso diz que uma parte de outros faz parte de mim. E isso muda o que eu entendia por autoria.
Cada livro que leio, cada filme que vejo, cada pessoa com quem converso, cada ser com quem trava contato, tudo isso transforma meu pensamento de alguma forma. Não só porque a matéria-prima do que escrevo seja a vida. Mas porque nunca saio igual desses contatos. Algo fica. Às vezes sei o que foi. Às vezes só noto o efeito muito depois, numa frase que escrevo sem perceber de onde veio.
O escritor que pensa de si mesmo como fonte original e autossuficiente está enganado sobre o que é um pensamento. Pensamentos não nascem do nada. Nascem de outros pensamentos, de conversas, de leituras, de silêncios que alguém interrompeu no momento certo. A interioridade não é uma câmara fechada. É um espaço permeável que respira o mundo ao redor e o transforma em algo que eventualmente parece próprio.
Há algo estranho em aceitar isso. Imaginar que alguém semeou em minha alma algo que eu não pedi nem desejei. Às vezes pela influência direta, às vezes pelo simples contato, às vezes até pela negação de um preconceito que me foi dado e que precisei recusar. É uma ideia que retira do eu uma soberania que gostamos de acreditar que temos.
Mas há algo profundamente libertador no mesmo pensamento. Se o que construo intelectualmente não vem apenas de mim, então não carrego sozinho o peso de tudo que penso. Os erros de raciocínio que ainda não percebi, as limitações que ainda não enxergo, os ângulos que ainda me escapam não são apenas meus. São o limite de tudo que encontrei e colhi até hoje. E esse limite pode ser alargado. Por uma conversa, por um livro, por uma discordância que me faça pensar.
Isso reconforta de uma maneira que a ideia do gênio solitário nunca poderia reconfortar. O gênio solitário está sozinho com seus erros. Quem pensa em companhia pode ser corrigido, ampliado, desafiado.
Penso nos autores que vivem em mim (Agostinho, Tomás, Eça, Érico), e tantos outros cujos nomes não aparecem porque nem sei mais que estão lá. Penso na minha esposa, que ouviu as histórias antes de qualquer leitor e cujas reações moldaram o que essas histórias se tornaram. Penso em Cadu, que escreve comigo sem saber que escreve.
Quando escrevo uma crônica filosófica, estou colocando em forma uma destilação de tudo isso. Não sou eu que pensa; sou eu como ponto de convergência de tudo com que entrei em contato e que ficou. O texto que sai é meu no sentido em que passou por mim, foi filtrado pela minha experiência, organizado pela minha língua, marcado pelas minhas escolhas. Mas não é meu no sentido de que teria existido sem o mundo que o formou.
Há tempos me descrevo da mesma forma quando alguém pergunta por que escrevo: sou um homem simples que só quer entender o mundo ao redor. E por isso escreve.
Essa descrição ainda me parece verdadeira. Mas agora entendo melhor o que ela contém. Entender o mundo ao redor não é um ato solitário. É um ato coletivo realizado por um indivíduo. Eu sou o ponto onde a compreensão se articula em língua, mas a compreensão em si foi construída em conversas, em leituras, em discordâncias, em silêncios compartilhados com pessoas que nem sempre sabem que me ajudaram a pensar.
A frase que pausei e não soube de quem era (dela ou minha) era provavelmente das duas coisas. Ela passou pelo filtro da minha experiência, mas veio de um lugar que não era só meu. E talvez seja assim com tudo que escrevo, e com tudo que qualquer escritor escreve.
Ninguém escreve sozinho. Alguns apenas têm mais clareza sobre quem está escrevendo junto.
