A Insubordinação do Talvez

Assisti ao jogo contra a Escócia com uma sensação que andava esquecida. Não foi a vitória em si; foi a maneira. A seleção jogou, por alguns instantes, como eu esperava que ela jogasse. Uma sombra do que já foi, talvez, mas uma sombra reconhecível. E algo se moveu em mim.

Na manhã seguinte percebi que não tinha sido só comigo. Havia nos comentários, nas conversas, no ar uma palavra que andava ausente: esperança. Olhei a tabela. O caminho até a final é uma sucessão de barreiras que parecem grandes demais. Quem quer ser campeão não escolhe adversário. A lógica fria diz que é improvável. E ainda assim, contra a própria lógica, a final voltou a parecer possível.

Este não é um texto sobre futebol. É sobre o que aconteceu dentro de mim diante de um placar. Essa coisa estranha que nasce em nós quase junto com o verde e amarelo, e que talvez seja uma das mais humanas que existem.

Porque a esperança não é espera passiva. É exatamente o contrário disso. É uma forma de insubordinação contra aquilo que se apresenta como inevitável.

Antes de seguir, é preciso desfazer uma confusão comum. Otimismo e esperança não são a mesma coisa e tratá-los como sinônimos enfraquece os dois. O otimista acredita que tudo vai dar certo. É uma aposta na probabilidade, uma leitura favorável das chances. O esperançoso não precisa acreditar nisso. Ele pode enxergar com total clareza o fracasso, a dor, a injustiça, a possibilidade real da derrota e ainda assim agir.

Essa diferença é tudo. O otimista aposta na probabilidade. O esperançoso aposta no valor. Por isso a esperança é mais corajosa que o otimismo: ela não depende de que as chances sejam boas. Depende apenas de que algo valha a pena ser tentado, mesmo quando as chances são ruins.

A esperança começou quando, olhando para a tabela impossível, eu disse “talvez”. Um talvez pequeno. Quase nada. Mas revolucionário porque ele reabre o futuro que o diagnóstico já tinha fechado.

Sei que o próximo jogo pode ser o último. Sei que, quando este texto for publicado, a seleção talvez já tenha sido eliminada. Pelo Japão, pela Suécia, pela Holanda, ou mais adiante pela França ou pela Noruega. Pode ser. E é justamente esse risco que torna o “talvez” o que ele é. Se houvesse garantia, não seria esperança. Seria cálculo.

Existe uma tendência profunda no espírito humano de tratar o presente como destino e o passado como prova. Quando algo dura tempo suficiente, passamos a acreditar que sempre foi assim e sempre será. Foi assim com impérios que pareciam eternos, com a escravidão que parecia natural, com ditaduras que pareciam permanentes, com estruturas de opressão que pareciam parte da paisagem. E é assim, em escala menor, com nossos fracassos pessoais que aprendemos a ler como sentença, não como episódio.

A esperança interrompe essa lógica. Ela faz uma afirmação que, examinada de perto, é quase escandalosa: o presente não tem o direito de definir sozinho o futuro. Tudo que existe pretende ser definitivo, e a esperança é a recusa teimosa de aceitar essa pretensão. É, no sentido mais exato da palavra, um ato de rebeldia.

O filósofo alemão Ernst Bloch dedicou uma obra inteira a isso. Para Bloch, a esperança nasce do “ainda-não”, o Noch-Nicht. A realidade, dizia ele, não é apenas aquilo que já existe; ela carrega dentro de si aquilo que pode vir a existir. O ser humano não habita apenas o presente. Habita possibilidades. Vive permanentemente projetado para a frente, puxado não só pelo que é, mas pelo que ainda não é e poderia ser. Somos, nesse sentido, criaturas do futuro tanto quanto do presente.

É por isso que o oposto da esperança costuma ser mal diagnosticado. Dizem que é o desespero. Não é. O desesperado ainda sofre. E sofre precisamente porque ainda deseja. Seu sofrimento é prova de que algo ainda importa para ele. O verdadeiro oposto da esperança é o cinismo.

O cínico desistiu de desejar e chama isso de lucidez. Mas não alcançou clareza nenhuma, apenas trocou a dor pela resignação, e a resignação pela couraça.

O cínico se protege da decepção, e nisso ele é eficiente. Ninguém o engana, ninguém o ilude, ninguém arranca dele uma esperança para depois frustrá-la. Mas o preço dessa proteção é alto: ele perde a capacidade de acreditar em qualquer coisa, inclusive nas que mereceriam crença. É o brasileiro que torce pela seleção adversária só para poder dizer, depois, que sempre soube que a nossa não prestava. Ele transforma o próprio pessimismo em profecia e a profecia em prova de inteligência. Mas o que parece sofisticação é, no fundo, medo. O medo de querer algo e não conseguir.

Aqui está a verdade mais difícil sobre a esperança, e a razão pela qual ela é tão rara: ela exige vulnerabilidade. Esperar é correr o risco de se frustrar. Quem não espera nada não se decepciona, não sofre perdas, não se expõe. Mas também não constrói, não ama plenamente, não aposta em nada que possa falhar. Toda esperança é uma exposição voluntária à possibilidade da dor. É baixar a guarda diante de um futuro que pode ferir. E é por isso que ela é, ao mesmo tempo, tão difícil e tão necessária, porque tudo que vale a pena na vida humana exige essa mesma exposição.

É também por isso que a esperança é o pilar da fé, e não o contrário. A esperança cristã não nasce da observação favorável da realidade; nasce apesar dela. Não é à toa que o símbolo central do cristianismo não é uma coroação, mas uma cruz. O instrumento da derrota mais completa transformado em sinal da esperança mais radical. A afirmação, levada ao limite, de que a esperança pode sobreviver precisamente ali onde toda expectativa racional já foi declarada morta.

A seleção pode perder na próxima segunda. Pode cair no jogo seguinte. Quando você ler estas linhas, talvez o sonho já tenha acabado e o meu “talvez” tenha se revelado ingênuo. Eu sei disso. Sempre soube.

Mas o valor daquele “talvez” não dependia do resultado. Ele já tinha feito seu trabalho no instante em que reabriu o futuro que a tabela tinha fechado. Por algumas horas, na manhã depois do jogo, milhões de pessoas voltaram a habitar uma possibilidade. E isso não é pouco. Isso é, talvez, uma das coisas mais profundas que somos capazes de fazer: recusar que o provável tenha a última palavra.

A esperança não existe onde há garantias. Se há garantia, não é esperança; é certeza, e a certeza não precisa de coragem. A esperança só existe onde existe risco. Onde o fracasso é possível, onde a dor é possível, onde a derrota está sobre a mesa e mesmo assim alguém escolhe acreditar que vale a pena tentar.

É a coisa mais arriscada que fazemos. E, por isso mesmo, talvez a mais humana.

A esperança não aposta no provável. Aposta no que vale a pena, mesmo quando é improvável.

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