Talvez seja porque o calendário virou de novo ou porque o corpo finalmente pediu trégua, mas hoje acordei com uma pergunta incômoda na cabeça: afinal, por que viajar?
A resposta fácil já conhecemos; porque se gosta, porque se descansa, porque se vê o novo. Mas isso explica pouco. É como tentar entender o mar olhando apenas para a espuma.
A verdade é que ninguém se enfia, de bom grado, por horas dentro de um carro apertado ou espremido naquele assento de avião onde até o pensamento parece não caber, apenas para “relaxar”.Quem já passou por um atraso de conexão, uma mala extraviada ou aquela súbita crise existencial no meio do trânsito sabe que relaxamento não está necessariamente incluído no pacote.
E, mesmo assim, vamos. Vamos e voltamos.
Voltamos aos lugares que já conhecemos e que ainda têm o poder misterioso de nos surpreender, como se cada esquina fosse nova, como se cada pôr do sol guardasse uma senha que esquecemos.
Percebo, então, que talvez a pergunta correta não seja “por que viajar?”, mas “por que insistimos em ir?”.
Por que atravessamos estradas compridas, suportamos filas intermináveis, gastamos o que às vezes nem temos; tudo para chegar a um lugar que pode não significar nada a ninguém além de nós mesmos?
Talvez porque viajar é uma espécie de reinício silencioso.
Uma forma de ouvir o coração bater mais fundo, como quem verifica se ainda está vivo por dentro.
É lembrar que os sonhos, esses teimosos habitantes do peito, ainda não pediram demissão.
É descobrir que o corpo, mesmo cansado, ainda tem força para caminhar mais um pouco, e que a morte, quando vier, que nos encontre em movimento, e não plantados na mesmice.
Viajamos para nos perder e, perdidos, redescobrir o caminho.
Para olhar o mundo e, refletido nele, encontrar um reflexo mais nítido de nós mesmos. Porque às vezes é no rosto desconhecido, na rua que nunca vimos, no pôr do sol que não se repetirá, que percebemos o milagre discreto de estar vivo e a chance, sempre possível, de começar de novo.
