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O Prazer e o Peso do Poder

Resolvi escrever um romance histórico. Ingenuamente, achei que seria um único livro. Mas a pesquisa foi tão fundo que, quando percebi, tinha material para uma saga: quatro volumes já escritos, mais dois esboçados. Um império narrativo que nasceu de um punhado de anotações.

Minha esposa é minha revisora e crítica. Lê cada capítulo com olhos atentos, mais de detetive do que de leitora. No segundo romance, há um antagonista que, para mim, é cristalino: criminoso, escravo de sua própria ambição, vive como um monge às avessas, sem luxo e sem herdeiros. Ela, no entanto, não entende suas motivações. “Por que ele é assim?”, pergunta, como se buscasse uma infância traumática, um amor perdido, algo que explique.

Minha resposta é simples: o poder.

Poder que não se acumula em cofres, mas se respira no ar de quem o exerce. Poder que, como diria Foucault, não é um objeto, mas uma relação — uma rede invisível que se estende por olhares, gestos, silêncios. Esse antagonista vive de manipular, influenciar, moldar o destino dos outros. Não precisa de herdeiros: seu legado é o controle.

Talvez minha esposa não entenda porque espera uma lógica de “vilão com causa”. Mas o poder puro raramente precisa de causa — basta-lhe existir. Para alguns, ele é prazer: ativa recompensas secretas no cérebro, dá sentido à rotina, confirma um lugar no mundo. Para outros, ele é peso: gera ansiedade, medo de perder o controle, pavor da queda.

E talvez aí esteja o ponto cego: o personagem não quer riqueza, não quer conforto, não quer amor. Quer o jogo. Quer a sensação de que as peças se movem porque ele as move. Quer o tabuleiro todo, mesmo que nunca vença oficialmente a partida.

No fundo, suspeito que o poder, assim como nas minhas páginas, também não precise de herdeiros. Ele sempre encontra um próximo jogador.
E se você acha que não está nesse tabuleiro, talvez só não tenha percebido quem está movendo você.

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