O sol de dezembro queimava as cabeças bronzeadas na piscina do Ilha Clube. A água refletia o céu, e o som de “Uma Noite e Meia” reverberava entre risos e mergulhos.
Fernando, treze anos, rosto coberto de espinhas, corria atrás das meninas mais novas. Fazia sucesso com elas — sorria, encantava — mas seu coração batia mesmo era por Daniella, quinze anos, loira de farmácia, corpo escandalosamente desenvolvido. Ela desfilava entre guarda-sóis, de biquíni fio-dental, provocando olhares e ciúmes.
— Te acho mó gata, Dani! Bora ficar? — ele se arriscava, enrubescido.
— Sai fora! Se enxerga, garoto — respondia ela, com um sorriso que queimava mais que o sol.
O desejo se instalava silencioso, porém intenso. Fernandinho aprendia cedo que nem todo amor é correspondido, e que a obsessão podia ser deliciosa e dolorosa ao mesmo tempo. Nas noites, sozinho em seu quarto, “fazia justiça com as próprias mãos”, pensando em Dani.
Os verões se sucederam. Dani colecionava ficantes — muitos deles casados — sempre sob os olhares da gente faladora do Ano Bom. Fernandinho, embora o garanhão das meninas mais novas, não esquecia Dani. Encontravam-se por acaso na praça, nos bares, no colégio. A cada recusa, a obsessão crescia.
Os vizinhos comentavam, mas ninguém intervinha: era espetáculo e tragédia ao mesmo tempo.
Quando Dani fugiu com um vendedor de passagem pela cidade, Fernandinho já cursava a Escola Técnica. Bom aluno, antes mesmo de concluir o curso foi disputado por vários setores da CSN. A vida parecia seguir: trabalhou, fez amizades certas, foi promovido, entrou para engenharia. Fernandinho exalava sucesso.
Anos depois, Dani voltou à cidade. O reencontro aconteceu no Gaia Grill — cheio de luzes, cheiros e risos. Ela o reconheceu e lançou-se nele com toda a malícia de quem sabe o que quer.
— Fernandinho? — disse, a voz doce, carregada de intenção.
Ele se levantou, surpreso. Ela se aproximou, tocou-lhe o braço:
— Quanto tempo… — sussurrou, sorrindo, os olhos fixos nele.
Fernandinho, porém, estava com Ana Carolina — moça direita, noiva em perspectiva. O drama explodiu: Ana Carolina rompeu o noivado, e Fernandinho, seduzido pela audácia de Dani, cedeu. O escândalo floresceu: vizinhos cochichavam, garçons olhavam, o bairro assistia.
O casal passou a viver numa casa modesta, de paredes finas e vizinhos atentos, numa parte pouco nobre do Ano Bom.
Dani, que nunca negara a própria natureza, traía Fernandinho à luz do dia. Ele descobria; ela chorava, pedia desculpas e o seduzia com as mãos dentro da calça. Os arrepios que ela provocava dissolviam sua raiva.
O bairro transformou-se em tribunal: cochichos na padaria, olhares na rua, piadas na praça. Fernandinho tornou-se refém do ciclo — cada dia mais obcecado, cada dia mais humilhado. Sabia, e o ressentimento o corroía.
Cansado das traições, decidiu agir. Escolheu Camila, a “Mila” — vizinha que desde a escola o desejava. Não era apenas prazer: era vingança silenciosa. Cada encontro com Mila era um pequeno triunfo, um golpe contra Dani.
Dani descobriu a traição.
— Como você se atreve? — gritou. Não houve choro nem sedução: deu-lhe uma surra e o humilhou. Depois saiu, fechando a porta para sempre, deixando Fernandinho sozinho e arranhado, o rosto em brasa.
Dias depois, a polícia apareceu: Dani havia denunciado Fernandinho por violência doméstica. Meses depois, chegou a intimação do juiz — pensão e indenização pela humilhação sofrida.
Sozinho no quarto, Fernandinho sentou-se na cama, olhando para o teto. Pensou em Dani, como aos treze anos, e então “fez justiça com as próprias mãos”.
