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O Professor e a Educação: uma relação indissociável esquecida pela política

Por mais que o discurso político brasileiro repita a palavra “educação” como um mantra, o que se tem visto é uma lenta e perigosa tentativa de dissociar a escola de sua figura mais essencial: o professor. Não há escola sem professor, e não há educação formal sem escola. Essa verdade, tão elementar quanto ignorada, tem sido continuamente desfigurada por narrativas que colocam a estrutura acima do sujeito, o prédio acima da prática, o discurso acima do fazer educativo.

Paulo Freire, em sua pedagogia libertadora, ensinou que “não há educação neutra”: todo ato educativo é um ato político. O professor, nesse sentido, não é apenas um transmissor de conteúdos, mas o mediador entre o saber e a realidade social do educando. Ao tentar reduzir o docente a um técnico ou, pior, a um inimigo ideológico, parte da política brasileira desfigura o próprio sentido da educação — que é o de formar sujeitos críticos e conscientes de seu papel no mundo.

Nos últimos anos, multiplicaram-se discursos que buscam rotular o professor: “doutrinador”, “comunista”, “ideólogo travestido de educador”. Claro que há educadores com posições políticas, como há em qualquer profissão. Mas transformar essa diversidade em ameaça é confundir pluralidade com perigo, e pensamento com doutrinação. Paulo Freire diria que é a tentativa de domesticar a consciência — uma violência simbólica travestida de zelo moral.

Dermeval Saviani, por sua vez, advertiu que a educação é uma prática social intencional, e que sem o trabalho do professor não há mediação entre o saber elaborado e o saber cotidiano. O discurso político, porém, insiste em tratar a educação como questão de infraestrutura: constrói-se escola, pinta-se parede, oferece-se merenda, distribui-se uniforme. Tudo isso é importante, mas acessório. A essência da escola está na relação pedagógica, na práxis entre quem ensina e quem aprende. A escola pode funcionar sem gestor, sem burocrata, sem merendeiro, mas sem professor ela deixa de existir.

Essa inversão de prioridades — valorizar o que é material e negligenciar o que é humano — é um traço histórico da nossa política educacional. Ao longo de décadas, prometeu-se “valorização da educação”, mas quase nunca se falou em valorização do magistério. E quando se fala, restringe-se o debate a salários, esquecendo que a desvalorização é também simbólica e cultural: é o desprezo pela autoridade moral e intelectual do professor, que já foi o centro da vida pública e hoje é visto com desconfiança.

Miguel Arroyo tem razão ao afirmar que o professor foi transformado em “bode expiatório” da crise educacional. A narrativa contemporânea tende a culpá-lo por todos os males: pelo baixo rendimento, pela suposta ideologização, pela resistência a mudanças. O discurso gerencial, que entrou com força na administração pública, substituiu a valorização do saber docente por uma lógica de resultados e metas. Com isso, o professor deixou de ser o intelectual da cultura para tornar-se um operário do currículo, constantemente vigiado, testado e avaliado.

Mas o que mais impressiona é que, apesar de tudo, o professor continua sendo o maior exemplo de formação permanente. É a categoria que mais estuda, que mais se atualiza, que mais reflete sobre a própria prática. Se é verdade — como alguns dizem — que os professores de hoje estariam entre os piores alunos de outrora, o presente já desmente essa acusação: são justamente eles que mantêm o hábito do estudo vivo, enfrentando jornadas duplas e triplas, cursos de formação continuada, pós-graduações e leituras incessantes.

É preciso recuperar, portanto, o lugar simbólico e político do professor. Freire dizia que “ensinar não é transferir conhecimento, mas criar possibilidades para a sua produção ou construção”. Saviani lembrava que a escola é o espaço onde se articula a prática social com o conhecimento científico. Arroyo acrescenta que o professor é o sujeito histórico que resiste, mesmo quando o sistema o tenta silenciar. Essas três vozes, quando reunidas, formam um coro poderoso: o da defesa da docência como fundamento da educação e da democracia.

Por isso, falar em “valorização da educação” sem falar na valorização do professor é um contrassenso. É como querer cultivar um jardim sem cuidar do jardineiro. O país pode reformar escolas, digitalizar salas, comprar tablets, distribuir merenda — nada disso substituirá a presença viva de quem ensina. A reconstrução da educação brasileira começa pelo reconhecimento de que o professor é o coração pulsante da escola.

Pelo bem da nação — e da própria inteligência pública —, é urgente restabelecer o respeito à docência. Rever práticas pedagógicas, sim. Revisar políticas, também. Mas jamais repetir o erro de transformar o educador em inimigo. Porque quando se desqualifica o professor, o que se destrói não é apenas uma categoria: destrói-se a própria ideia de futuro.


Referências

  • FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Paz e Terra, 1968.
  • SAVIANI, Dermeval. Escola e Democracia. Autores Associados, 1983.
  • ARROYO, Miguel G. Ofício de Mestre: imagens e autoimagens. Vozes, 2000.

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