Clara Noronha fechava a tampa do notebook quando o celular vibrou sobre a mesa. Reunião concluída, colegas dispersando, a cidade acesa pela pressa. Pegou o aparelho distraída, mas o que leu a fez perder o ar:
“O médico disse que tia Zelinha só tem alguns dias de vida. Quando ainda tinha lucidez, só falava de você.”
A mensagem vinha de Joana, amiga dos tempos de escola. Clara sentiu o peso das palavras como uma pedra arremessada contra o peito. Segurou-se para não chorar diante da equipe. Apenas se levantou, recolheu os papéis, disse que precisava sair. No corredor, ligou para o marido.
— Amor, não vou pra casa hoje. Preciso fazer algo por uma pessoa.
— O que houve, Clara? — a voz de Arthur soava preocupada.
— É a tia Zelinha. Ela está morrendo. Preciso vê-la, ao menos uma última vez.
— Quer que eu vá com você?
— Não precisa. Tem coisas que a gente precisa enfrentar sozinha.
No carro, o trânsito da tarde em São Paulo parecia interminável. A cada semáforo fechado, as lembranças se infiltravam. Logo pegou a Fernão Dias. Desde que o pai morrera, vinte anos antes, e trouxera a mãe para morar com ela, não voltava àquela estrada. O asfalto lhe trouxe memórias adormecidas: a primeira vez que deixara sua cidadezinha em Minas, sacolejando no fusca velho da tia Zelinha.
— Você tem muito potencial, Clarinha. Não pode ficar enterrada naquele lugar sem futuro!
Clara, tímida, duvidava de si. Zelinha não. Fora ela quem bancara a inscrição no vestibular, ajeitara hospedagem em São Paulo, transformara esperança em fato consumado.
— Não sei, tia Zelinha… Acho que nem vou passar. E, se eu passar, não sei como vai ser viver naquela cidade enorme.
— Lógico que vai passar, Clarinha! E do jeito que é esperta, vai conquistar aquela cidade! Já sabe: pode ficar na casa da minha irmã. Conversei com ela, está tudo resolvido. A filha foi morar no exterior e não deve voltar tão cedo.
Décadas haviam passado. Clara entrara na USP, brilhara entre os primeiros colocados, sobrevivera a anos de estudo e de trabalhos temporários. Como jornalista, cavara espaço até ser enviada ao Afeganistão. O horror da guerra quase lhe roubou a vida, mas também lhe deu um livro. O best-seller a transformara em nome conhecido. Agora, aos cinquenta, comandava uma redação.
Durante toda a jornada, nunca deixara de escrever para tia Zelinha. Ainda mais depois que a mãe fora morar com ela em São Paulo e já não visitava a cidade natal. Não eram e-mails nem mensagens de celular: eram cartas, escritas à mão, com caneta e papel, na mesma letra redonda de menina que Clara insistia em manter. Cada conquista era dividida com a mentora. E, quase diariamente, chegavam respostas de tia Zelinha.
Mas, uns dez anos antes, as cartas rarearam. O Alzheimer a alcançara. Clara ainda escrevera por um tempo, mas, sem respostas e absorvida pelas contingências da vida, foi também deixando de escrever. O elo se perdia.
Já noite fechada, estacionou diante do único hotel da cidade. Na recepção, uma jovem sorriu com familiaridade.
— Boa noite. Vocês têm um quarto? Só para esta noite.
— Boa noite. Temos, sim. A senhora deseja um quarto de frente? Preencha esta ficha, por favor.
— Pode ser. Você não me parece estranha. Qual é seu nome?
— Ana Carla.
— Você é filha da Marlene?! Meu Deus! Como ela está? Você é a cara dela!
— Ela está bem. A senhora a conhece?
— Eu te peguei no colo! A Marlene foi minha colega na escola da fazenda.
— Meu Deus, a senhora é a Clarinha de quem minha mãe tanto fala? — Ana Carla lia o nome de Clara na ficha.
— Bom, se for a Clarinha que estudou com ela, sou eu mesma.
— A senhora é famosa! Tira uma foto comigo para mostrar pra minha mãe?
— Claro!
Depois da sessão de fotos que Ana Carla impôs, Clara pegou a chave do quarto. Só queria descansar. No outro dia, logo após o café da manhã, iria visitar tia Zelinha.
Mas, sozinha, as lembranças teimavam em dançar em sua mente. Lembrou-se do primeiro dia de aula na escolinha da fazenda. A amiga Marlene, com seus seis anos, se apresentando:
— Oi, eu sou a Marlene. E você?
Clara, acanhada, quase se encolhia no vestidinho surrado.
— Clara.
A professora entrava na sala: uma mulher jovem, morena, olhos expressivos e bondosos, cabelo curto, lembrando o corte da atriz da novela que Clara assistia com a mãe no pequeno televisor de casa. A professora se apresentou com voz doce:
— Bom dia, turma! Meu nome é Zélia, mas vocês podem me chamar de tia Zelinha.
Os primeiros passos nas letras foram difíceis. Clara não conseguia entender as lições da cartilha. Tia Zelinha segurava sua mão, ajudava-a a decifrar os sons, guiava-a pela leitura com maestria quase mágica. Assim, como por encanto, Clarinha aprendeu a ler e escrever. Mas não apenas escrever: criava intimidade com as palavras, brincava com elas.
Na mesma turma, havia alunos de diferentes níveis, como era comum nas escolas rurais. Tia Zelinha acompanhou Clara até a 4ª série. Tornaram-se parceiras. Todos os dias, Clara caminhava mais de dois quilômetros sozinha por uma estrada erma para chegar à escola. Ao saber disso, a professora, quando Clara tinha sete anos, mudava seu caminho: passava em frente à sua casa, colocava-a na garupa da bicicleta e a levava. Sol ou chuva, tia Zelinha estava sempre ali.
— Bora, Clarinha!
Clara adormeceu com a doce lembrança do som da campainha da bicicleta da professora.
Na manhã seguinte, pelas oito, acordou como se tivesse dormido séculos.
— Ah, o silêncio da vida pacata do interior!
O café tinha cheiro de infância: broa de milho, pão de queijo fumegante. Ao caminhar pelas ruas silenciosas, deparou-se com a velha escola estadual. Parou diante do portão, os olhos marejados. Ali nascera sua vocação. Ali aprendera a amar as palavras.
De repente, outra lembrança irrompeu: no quintal de casa, chorando escondida, ouvira os adultos discutindo.
— A filha é minha e não vai continuar na escola, Zélia! — gritara o pai.
— O destino dela não é o da sua roça. O destino dela é maior. — respondeu a professora.
Dona Maria José, mãe de Clara, guardava o silêncio, mas dentro dele gestava coragem. Foi ela quem se aliou à professora, quem matriculou a filha às escondidas, quem convenceu o marido com a força discreta de uma decisão já tomada.
A lembrança rasgava Clara por dentro. E se a mãe não tivesse cedido? E se tia Zelinha tivesse desistido? Que vida teria levado?
Suspirou fundo e seguiu até a casa simples da professora. Joana abriu a porta e a envolveu num abraço longo, silencioso. Conduziu-a ao quarto.
Tia Zelinha estava deitada, o rosto magro, os olhos opacos. O Alzheimer lhe roubara as memórias, mas não o amor que Clara sentia por ela. Sentou-se ao lado, tomou-lhe a mão fria e enrugada.
— Espero que a senhora esteja aí pra me ouvir. Demorei demais pra dizer isso, mas a senhora me salvou!
As lágrimas escorreram. E, de repente, algo aconteceu: os olhos da velha mestra brilharam como antigamente, a vida retornou por um instante.
— Clarinha? Que saudade, minha filha!
Clara engasgou em soluços.
— A senhora ainda se lembra de mim?
Um sorriso cansado, mas cheio de ternura, iluminou o rosto da professora.
— Como eu me esqueceria da minha melhor aluna?
Naquele instante, todo o prestígio, os prêmios, a carreira internacional de Clara perderam importância. O que restava era o abraço, o olhar, a certeza de que a gratidão é a maior forma de eternidade.
E assim, no lampejo de lucidez da mestra, Clarinha voltou a ser apenas uma menina com um caderno nas mãos, recebendo sua última lição.

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Morgana Virira
Que lindo conto!!!
Gratidão sempre comove!