
Numa rolagem despretensiosa pelo meu Facebook, deparei-me com uma imagem que resgatava um antigo post da jornalista e professora Juliana Cunha. As frases, afiadas como navalha, me chamaram atenção pela ousadia: “a principal função da escola é proteger os filhos dos pais”; “pai e mãe não é bênção, é mal necessário”. Palavras que, lidas sem respiro, soam como um manifesto contra a instituição familiar.
É fato que a autora não falava de dentro de gabinetes ministeriais, mas das trincheiras opinativas da vida digital, onde a provocação costuma valer mais do que a precisão. Ainda assim, há algo de verdadeiro — e de desconfortável — nas frases que tanto irritam quanto convidam ao debate.
De um lado, está a constatação de que criança não é propriedade dos pais. A escola, como espaço público, amplia horizontes, dá acesso a ideias que a família, por amor ou por limite, não alcança. Nesse ponto, Juliana acerta: o aprendizado não pode ser refém das fronteiras do lar. É direito da criança conhecer outros mundos além daquele em que nasceu.
De outro, há o exagero que beira a caricatura. Quando se afirma que a escola deve “proteger de todos os pais” ou que pai e mãe são um “mal necessário”, corre-se o risco de apagar o papel vital da família. Afinal, não são apenas fonte de repressão ou de visões limitadas; são também lugar de afeto, de segurança, de referências que ajudam a enfrentar a vida. O perigo do radicalismo está em reduzir a complexidade da experiência humana a slogans de oposição.
O mérito das palavras de Juliana talvez não esteja na literalidade, mas na provocação. Forçam-nos a pensar no quanto a família pode ser insuficiente, às vezes até opressora, e no quanto a escola deve oferecer mais que conteúdos curriculares: deve ser ambiente de pluralidade, onde cada criança possa encontrar espaço para ser o que é. Mas a reflexão só ganha força quando equilibrada: a escola não existe contra a família, mas em diálogo com ela.
No fim, a lembrança que fica desse post antigo é que as redes sociais, com sua fome por frases curtas e contundentes, pedem radicalismos para gerar repercussão. A nós, leitores e cidadãos, cabe o exercício oposto: o de pegar a frase de efeito e soprar nela o ar da nuance. Porque a vida — e a educação — raramente cabem em 280 caracteres.

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Ana Claudia
Muito boa reflexão. Como tudo há a necessidade do equilíbrio e que cada um cumpra seu papel. Escola sendo escola e falíeis sendo família sem uma se sobrepor sobre a outra, mas caminharem lado a lado com um mesmo objetivo. Parabéns pelo texto! Gostei muito