Eu me lembro perfeitamente daquele dia. A professora Terezinha me chamou com urgência: a turma do quinto ano havia ultrapassado os limites. Havia entre os alunos um menino de saúde frágil, já bastante debilitado por uma doença cruel. Sofria em silêncio as zombarias dos colegas, que viam em sua diferença motivo de riso. Ele partiria alguns meses depois, e talvez ninguém, além da professora, tivesse percebido o quanto ele já estava indo embora.
Minha missão, como diretor, era simples: dar uma bronca. Falar de respeito, de limites, de comportamento. Mas quando entrei na sala e vi aqueles rostos curiosos e inquietos, senti que a bronca seria pouco. Resolvi falar sobre ética.
Expliquei, com a voz embargada, que nossas atitudes deveriam ser guiadas pela ética — e não apenas pelas regras. Foi então que uma menina, com os olhos arregalados de quem descobre o mundo, levantou a mão e perguntou:
— Diretor, o que é ética?
Empalideci. Nunca pensei que uma pergunta tão simples pudesse me desarmar assim. Eu sabia o que era, claro — ou achava que sabia. Mas como explicar aquilo para crianças de dez anos, sem recorrer a definições complicadas? Depois de um breve silêncio, respondi do jeito que me veio:
— Ética é fazer o que é certo, o que é justo e honroso… mesmo quando ninguém está vendo.
Eles ficaram quietos. Talvez tenham entendido. Ou talvez apenas tenham sentido o peso daquelas palavras, como quem toca num assunto sagrado sem saber o nome dele.
Saí dali pensando em como nós, adultos, aprendemos sobre ética. Não nos ensinaram o conceito, mas vivíamos cercados de exemplos. Era o pai que trabalhava com honestidade, a mãe que fazia silêncio para não acordar o vizinho, o amigo que dividia o pouco que tinha. Chamávamos isso de educação — e não sabíamos que, na verdade, estávamos aprendendo ética.
Hoje, olhando em volta, percebo que algo se perdeu. A ética se tornou palavra rara, quase fora de moda. Cresce o coro dos que dizem: “o que importa sou eu”. A virtude cede espaço à vantagem. O outro se torna obstáculo.
E eu, que um dia tentei explicar a ética a uma turma de crianças, me vejo sem resposta diante do mundo dos adultos. Talvez a ética tenha deixado de ser ensinada não porque a escola falhou, mas porque as casas se calaram.
Não sei onde vamos parar se não corrigirmos o rumo. Só sei que, quando deixamos de ensinar o valor do outro, começamos a desaprender o que nos faz humanos.
