Se existe uma coisa que incomoda minha esposa é o assunto da minha morte. E porque sei que incomoda, a quinta série em mim teima em transformá-lo em assunto recorrente. A resposta dela é sempre a mesma: “Você não vai fazer essa desfeita pra mim, não é?” A desfeita não é morrer antes dela. É morrer. É a forma que ela encontrou para lidar com a ideia de que um dia eu possa me tornar apenas lembrança.
Mas escondido atrás das minhas convicções cristãs de vida eterna, nunca realmente disse a ela o que sinto sobre a possibilidade de sua partida antes de mim. Há uma assimetria curiosa nisso: falo da minha morte com ironia, quase como provocação. A dela, essa, sim, me paralisa. Não há quinta série que resista.
Em geral, não vivemos pensando na própria morte. Muito menos na morte de quem amamos. O medo nos tornaria incapazes de seguir em frente. Então construímos uma ilusão necessária: sabemos que somos finitos, mas vivemos como se fôssemos eternos. Não é negação. É, talvez, a única forma de amar sem tremor constante.
Pensar que somos passageiros neste mundo nos dá humildade. Lembra-nos que o tempo é escasso e que o que fazemos com ele tem peso. Mas há uma diferença entre contemplar a própria morte e contemplar a morte de quem amamos. A primeira nos ensina a viver. A segunda nos ensina quanto custou amar.
Tento imaginar que de alguma forma permanecemos. Não em fotos ou objetos, mas nos gestos que transmitimos, nas escolhas que moldamos, no modo como alguém aprendeu a olhar o mundo por ter sido amado por nós. Uma parte de cada um teima em continuar, ainda que o corpo tenha partido.
Às vezes observo minha esposa fazer exatamente o que sua mãe fazia: o mesmo tom de voz ao falar com veemência, o mesmo jeito de balançar a cabeça levemente, mas com firmeza demonstrando que concorda, gestos que ela repete sem perceber. A mãe dela partiu há anos. E, no entanto, está ali; nos gestos da filha, em algo absolutamente cotidiano que ninguém ensinou de propósito.
É assim que o amor permanece. Não como argumento. Como gesto. E talvez seja por isso que minha esposa não quer que eu morra; não apenas por mim, mas por tudo aquilo que, sem perceber, continuará vivendo nela.
