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O Perdão, Deus e o Homem

Escrevi dias atrás sobre o perdão (O Perdão e o Talvez). No texto disse que ele é o ato mais humano que existe porque está intimamente ligado à esperança. Acrescentei algo que pode ter soado estranho: Deus não tem esperança.

Não desenvolvi.

Talvez porque, naquele momento, meu foco fossem as relações humanas. Mas a frase ficou ali, como uma porta entreaberta. E sinto que preciso atravessá-la.

Antes de qualquer coisa, deixo claro: tudo o que escrevo nasce de dentro da fé católica que professo e na qual estou profundamente enraizado. Não se trata de especulação contra a Igreja, mas de reflexão dentro dela.

Dizer que Deus não tem esperança não é negar que Ele ame, que deseje nossa salvação ou que queira nossa conversão. É afirmar algo mais fundamental: Deus não espera porque nada Lhe falta.

Na tradição clássica (basta lembrar Santo Tomás de Aquino) a esperança é virtude de quem está em caminho. Ela supõe ausência atual de um bem e desejo de possuí-lo no futuro. Esperar é próprio da criatura, não do Criador.

Deus não está em processo. Não está em devir. Não caminha para uma plenitude que ainda não possui.

Ele é plenitude.

Se isso é verdade, então o pecado não altera Deus ontologicamente. Não diminui Sua glória. Não abala Sua essência. Deus não sofre mutação porque pequei ontem ou porque pecarei amanhã.

Mas aqui é preciso cuidado: o pecado é ofensa real. Não porque fira a substância divina, mas porque viola a ordem da justiça querida por Deus. A ofensa é relacional, não ontológica.

Deus não precisa ser restaurado. O homem precisa. E aqui começa o ponto mais delicado.

Quando no texto digo que talvez o perdão divino sirva mais a nós do que a Ele, não estou reduzindo o drama da Cruz nem diminuindo a gravidade do pecado. Estou apenas deslocando o eixo.

O pecado não é um ataque eficaz contra Deus. É uma autonegação. Ao pecar, o homem age contra sua própria natureza e destino. Fomos criados para comunhão; o pecado é ruptura dessa comunhão. Não destrói Deus; obscurece a nós mesmos.

É nesse contexto que a pergunta inevitável surge: Se Deus não é afetado ontologicamente pelo pecado, por que um Sacrifício tão grande foi necessário para apagar a culpa do pecado?

A resposta clássica de Santo Anselmo de Cantuária fala de satisfação da justiça: a ordem violada precisa ser restaurada. Mas há também uma linha mais profunda e talvez mais existencial: a Cruz não repara Deus; cura o homem.

Cristo assume a natureza humana para restaurá-la desde dentro. A Encarnação não é gesto teatral. É cirurgia espiritual. A Cruz não apazigua um Deus ferido emocionalmente; reabre ontologicamente a possibilidade de comunhão para o homem ferido.

O Sacrifício não muda Deus. Muda a condição do homem diante de Deus.

E é aqui que entro no terreno mais concreto da minha própria experiência: o confessionário.

Penso (e afirmo com convicção) que a forma sacramental do perdão na Igreja Católica possui uma densidade que não é apenas teórica. No confessionário, o perdão deixa de ser abstração interior. Ele se torna audível.

Há um homem do outro lado. Há meus pecados nomeados. Há minhas sombras expostas.

E então aquele homem, que não foi ofendido por mim, olha para mim e diz com uma naturalidade quase desconcertante:

“Eu te absolvo.”

Não é “Deus te perdoe”, como desejo piedoso. É uma fórmula eficaz.

Cristo ali se torna presente pelo ministério do sacerdote. O que o Evangelho anuncia sobre reconciliação acontece de maneira concreta, histórica, sensível pra cada pessoa dentro do confessionário.

A última vez que me confessei, quando o padre pronunciou a absolvição, a sensação foi paradoxal: primeiro, um impacto quase físico, como uma pancada que me desmontou por dentro. Depois, uma paz tão profunda que não saberia descrevê-la sem empobrecer.

Aquilo não foi sugestão psicológica. Foi evento.

E talvez seja justamente isso que torna o perdão tão humano: ele precisa atravessar o corpo, o ouvido, a palavra.

Deus não precisa do perdão. Eu preciso.

O sacramento não restaura a glória divina. Restaura a minha possibilidade de comunhão com Ela.

Se o perdão é o ato mais humano que existe, é porque ele está ligado à esperança; à possibilidade de recomeço, à abertura de futuro. E isso é próprio da criatura que ainda caminha.

Deus não espera. Nós esperamos.

E talvez seja essa a grande delicadeza da misericórdia: Deus, que nada precisa, institui um caminho visível, concreto, quase constrangedoramente humano, para que nós possamos voltar a ser aquilo que fomos criados para ser.

Não porque Ele precise de nós. Mas porque nós precisamos Dele.

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