Levava o Cadu para a escola quando o assunto do dia tomou conta do carro. O debate sobre banheiros voltara ao topo do feed, e eu resmungava sobre como essa discussão, legítima em si, havia sido inflada até ocupar todo o espaço disponível enquanto questões estruturais do país dormiam embaixo da dobra. Reclamei do óbvio:…
O sinal da fábrica apitava às sete horas.
Rogério ouvia aquele apito desde 1985 e o corpo já não precisava de relógio. Acordava antes, esticava os ossos, vestia a camisa com o movimento lento de quem não tem pressa porque sabe exatamente quanto tempo cada coisa leva. Da portaria ao vestiário, dois minutos. Do vestiário…
Era maio de 2040, e o entardecer caía sobre o bairro como alguém que desiste.
Márcio caminhava devagar, as mãos nos bolsos, os olhos percorrendo fachadas que já foram orgulho de alguém. Restavam as marcas. A moldura de uma janela trabalhada em pedra, um portão de ferro com iniciais forjadas, uma calçada de mosaico português…
Meu pai costuma dizer que, quando eu era pequeno, o desconcertava com minhas perguntas.
“Por quê, pai?”
Ele conta que, às vezes, ficava irritado. Não por impaciência comigo, mas porque não conseguia responder tudo. Havia perguntas para as quais ele simplesmente não tinha resposta. E isso o deixava nu diante da minha curiosidade.
A…
Nasci no final da década de 1970; quando o futuro ainda era um desenho animado.
Ele vinha em cores saturadas, com carros voadores e casas suspensas no ar. Parecia distante. Quase mítico. Algo que pertencia aos filhos dos nossos filhos.
A realidade, porém, tinha cheiro de papel. Tinha o barulho metálico das fichas caindo no…
Costumamos falar da educação pública brasileira como se ela tivesse nascido pronta (e com defeito). Não nasceu. Ela foi sendo construída ao longo do século XIX, reorganizada nas primeiras décadas do século XX e profundamente centralizada durante o governo de Getúlio Vargas, especialmente no Estado Novo, quando as reformas conduzidas por Gustavo Capanema estruturaram o…
Sempre gostei de heróis. Não apenas dos uniformes coloridos e das poses improváveis, mas da ideia de que alguém, de algum jeito, encontra meios de ampliar seus próprios limites. Sou fã da Marvel tanto quanto sou da DC, mas, entre todos os nomes estampados nas capas dos quadrinhos, dois sempre caminharam comigo desde a adolescência:…
