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Quando os adultos deixam de ser adultos

A vida de diretor tem desses dias.

O corredor reverbera o barulho de uma turma que saiu do controle. Ao abrir a porta, o cenário é brutalmente familiar: trinta alunos mergulhados no próprio tumulto e, à frente deles, um professor que até domina o conteúdo, mas cujos ombros já não sustentam o peso do ofício. O cansaço, a doença ou simplesmente o desgaste de existir naquele lugar lhe roubaram a voz. Ao lado, o orientador escolar já esgotou seu repertório de mediações. Chamam o diretor. É preciso pôr ordem na casa.

No meu tempo de menino, a entrada de um diretor na sala de aula instaurava um silêncio imediato. Era o sinal de que alguém havia cruzado uma linha grave (para o bem ou para o mal). Para mim, anos depois, assumir esse papel tornou-se quase cotidiano. Eu entrava, sustentava o olhar, nunca tive medo de soar severo. A ordem momentânea se restabelecia.

Mas a cena, repetida incontáveis vezes, revelava algo maior: a fratura exposta da nossa época.

Aquele professor diante do quadro não perdeu a autoridade por falta de técnica. Ele a perdeu porque foi deixado simbolicamente sozinho.

Autoridade nunca foi apenas uma qualidade individual. Ela sempre dependeu de algo maior que a sustentasse: tradição, instituições, uma cultura compartilhada. Durante muito tempo, quando um professor exigia silêncio, ele não falava apenas em seu próprio nome. Falava em nome de uma ordem que o precedia. Hoje, essa ordem se dissolveu.

O adulto continua diante da turma, mas já não carrega atrás de si o peso simbólico de um mundo que o sustente. E a voz de um indivíduo isolado é frágil demais contra o barulho de trinta vontades.

O que vemos naquela sala de aula é o sintoma visível de uma transformação cultural profunda. A diferença entre experiência e inexperiência perdeu relevância simbólica. Um adulto deixou de ser percebido como alguém que sabe mais sobre a vida e passou a ser apenas alguém mais velho.

Durante séculos, envelhecer significava acumular autoridade. Hoje, significa perder relevância cultural. Vivemos numa sociedade que idolatra a juventude, a novidade e a espontaneidade. Para não parecerem autoritários, antiquados ou repressivos, muitos adultos tentam ser amigos dos jovens. Negociam permanentemente quando deveriam orientar.

Essa mudança não nasceu de um impulso perverso. Ela surgiu de uma intenção moral compreensível. O avanço da linguagem psicológica trouxe consigo o medo constante de traumatizar a criança e o desejo legítimo de respeitar sua individualidade.

Mas, levada ao extremo, essa preocupação produziu um efeito inesperado. A infância, antes compreendida como uma fase de formação, passou a ser tratada como um território de vontades soberanas. Esquecemos que toda educação exige duas coisas que se tornaram culturalmente suspeitas: limite e frustração.

Hannah Arendt identificou o núcleo desse problema com precisão. A autoridade na educação não existe para dominar a criança, mas para representar o mundo diante dela. O adulto assume a responsabilidade de dizer, implicitamente:

“Este mundo existia antes de você. E eu tenho a tarefa de apresentá-lo.”

Quando o adulto recua dessa posição por medo de ser confundido com um autoritário, algo decisivo se rompe. A criança não ganha liberdade. Ela ganha abandono formativo.

A verdadeira autoridade não é uma imposição arbitrária. É uma responsabilidade assimétrica. O adulto precisa suportar o peso da decisão e servir de anteparo à frustração até que a criança esteja pronta para carregar esse peso sozinha.

Quando essa assimetria desaparece, a educação entra em crise.

E então voltamos àquela sala de aula: o professor adoecido diante do quadro, o orientador exausto, o diretor chamado às pressas para restaurar uma ordem que já não encontra sustentação na cultura. O problema nunca esteve apenas naquela turma.

O problema é que nos tornamos uma sociedade que desaprendeu a ser adulta.

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