Uma das primeiras decisões que tomei ao escrever Rios de Sangue e Ouro, ainda nas páginas iniciais, quando a saga era apenas um esboço do que se tornaria, foi sobre os diálogos. Não sobre o que os personagens diriam. Sobre como diriam.
A intuição veio de leitor, antes de vir de escritor: diálogos numa ficção…
Já faz mais de quinze anos que o Conselho Nacional de Educação emitiu o parecer desaconselhando a distribuição de Caçadas de Pedrinho nas escolas públicas sem mediação crítica. Lembro-me da polarização que se seguiu. De um lado, intelectuais e ativistas que argumentavam que o Estado não deveria endossar, sem contraponto, textos que desumanizassem a criança…
Tudo que aprendi sobre como se escreve um romance pode ser resumido assim: primeiro você pensa a história, cria os personagens, planeja os capítulos. Só então escreve. Depois de escrito, você revisa, desconstrói, reconstrói, cria novas estruturas, revisa de novo. Um leitor crítico. Depois um leitor beta. Nova revisão, novas demolições, restaurações de estruturas que…
No meio de uma sessão de revisão que tem consumido muitas horas de minha vida, parei numa cena específica de Rios de Sangue e Ouro: Joaquim sozinho, construindo uma casa que não será habitada por ninguém.
Ali, com o manuscrito aberto na tela, aconteceu algo que só posso nomear com a palavra certa: anagnórise. O…
Registro o processo de criação de Rios de Sangue e Ouro aqui porque a memória falha. Não a memória dos fatos (essa nos arquivos) mas a memória das razões. Por que esta cena existe. Por que este personagem toma esta decisão que parece estranha e só faz sentido quando se conhece a história inteira, inclusive…
A plataforma da estação de Barra Mansa cheirava a carvão e a despedida.
Era sábado, quinze de janeiro de 1944, e o trem para o Rio de Janeiro esperava com a impaciência das máquinas: vapor vivo, rodas paradas, como um cavalo que morde o freio. Na plataforma, a aglomeração habitual de mães e noivas e…
Mandei para minha Leitora Beta um post simples: quinze perguntas para um leitor beta. A resposta veio dias depois. Li com atenção. E o que mais me disse não foi o que ela escreveu claramente. Foi o que ela tentou aliviar.
Há um gesto específico que leitores de confiança fazem quando precisam dizer algo difícil:…
No terceiro capítulo da nova série Dona Beja, da HBO, senti que havia perdido o fio. Não o da história; o da credibilidade. O que estava diante de mim não era dramaturgia. Era uma agenda vestida com roupagem de época.
Decidi assistir à série por razões vagas. Era muito criança quando a TV Manchete fez…
O teto do corredor era alto demais para que os passos deixassem eco. Era essa a primeira coisa que Valéria havia aprendido sobre o Paço de São Cristóvão: a pedra ali absorvia os sons como absorve os segredos completamente, sem deixar rastro.
Ela dobrou o corredor com a bandeja equilibrada na palma direita, a cabeça…
Eu escrevi Manuel Nunes Viana como ele gostaria de ser lembrado.
Não foi intenção. Foi pior: foi desleixo intelectual disfarçado de pesquisa. Mergulhei nas fontes, encontrei as narrativas que me seduziram. O primeiro governador escolhido pelos mineradores, o defensor dos forasteiros, o líder que emergiu da vontade do povo, e escrevi o personagem que essas…
Quando o personagem histórico está suficientemente morto, podemos fazer quase tudo com ele. Inventar silêncios. Preencher lacunas. Emprestar intenções que os documentos não registraram. Ninguém cobra a dívida.
Mas há personagens que não estão suficientemente mortos. Não porque ainda vivam, mas porque ainda habitam o imaginário de quem lê. Narrar esses personagens é outro tipo…
Costumo dizer que O Último Trem é um projeto menor. E, enquanto digo, acredito.
É verdade. E é uma meia verdade.
O romance nasceu numa pausa. Minha Leitora Crítica precisava de tempo para analisar Rios de Sangue e Ouro, um livro que ela praticamente está me fazendo reescrever do zero. Enquanto esperava, escrevi O Último…
