Faz mais de vinte anos, mas me lembro com precisão. Um político local lançou uma campanha agressiva: cinquenta carros percorrendo a cidade com o mesmo jingle durante semanas. Era chiclete: entrava sem pedir licença e ficava. Eu me pegava cantando aquela musiquinha no chuveiro, na fila do banco, sem querer.
Mas o efeito mais revelador não foi sobre mim. Foi sobre meu primo, que tinha menos de dez anos na época. A música não apenas colou; criou nele uma espécie de identificação afetiva. O político virou celebridade. E em determinado momento meu primo suplicou ao próprio pai que votasse naquele candidato. Nunca soube se meu tio obedeceu, nem se obedeceu por causa do filho ou por causa das propostas.
O que aquela campanha me mostrou, com quase uma década de antecedência antes mesmo das redes sociais existirem de fato, foi isto: a política tinha mudado de eixo. Saíra da deliberação e entrara no entretenimento. O que viria depois apenas potencializaria o que já estava sendo feito naquela cidade do interior, com cinquenta carros e um jingle que ninguém pediu para memorizar.
Há uma característica do pensamento infantil que os psicólogos do desenvolvimento descrevem com precisão: a criança enxerga o mundo em categorias binárias e impermeáveis. Há os bons e os maus. Os heróis e os vilões. Os certos e os errados. E esses campos não se comunicam. Quem está de um lado não pode ter razão em nada, quem está do outro lado não pode ter falha em nada.
Essa não é uma crítica às crianças. É a estrutura cognitiva adequada a uma fase da vida. A criança ainda não desenvolveu a capacidade de sustentar contradições, de reconhecer mérito no adversário, de aceitar que uma causa boa pode ser defendida com argumentos ruins e uma causa ruim, com argumentos válidos. Isso se aprende. É, em certa medida, o que significa crescer.
A política adulta é feita de exatamente aquilo que essa fase ainda não tolera: conflitos legítimos entre interesses divergentes, escolhas que geram custos inevitáveis, soluções imperfeitas que precisam ser negociadas entre pessoas que continuarão a discordar depois que o acordo for firmado. A maturidade democrática não é a ausência de conflito. É a capacidade de administrá-lo sem precisar destruir o adversário.
A pergunta que levei quase vinte anos para formular com clareza é esta: o que acontece com uma democracia quando seus cidadãos passam a se relacionar com a política da mesma forma que meu primo se relacionava com aquele jingle?
A infantilização da política não acontece quando os cidadãos deixam de se interessar pelo poder. Acontece quando passam a se relacionar com ele da mesma forma que uma criança se relaciona com seus heróis: com devoção, identificação e incapacidade de enxergar limites.
A nossa política tornou-se um embate de torcidas. Há até camisas. E esse talvez seja o símbolo mais honesto do fenômeno. Porque a torcida não delibera. A torcida pertence. E pertencer é uma necessidade humana tão profunda que, quando os canais legítimos de pertencimento enfraquecem (família, comunidade, tradição), ela encontra outros.
O cidadão e o torcedor têm relações radicalmente distintas com a derrota. O cidadão pode perder uma eleição e aceitar o resultado como parte do jogo democrático porque seu vínculo é com o processo, não com o time. O torcedor não aceita a derrota da mesma forma, porque a derrota do time é, simbolicamente, sua própria derrota. E quem perde não aceita a legitimidade do placar. Procura o árbitro comprado, a conspiração, o roubo.
Em uma democracia saudável existe a oposição. Na política infantilizada existe o inimigo. Essa troca de uma palavra por outra não é semântica. É civilizacional.
Seria simples demais culpar as pessoas. A questão mais incômoda é que o ambiente foi redesenhado para recompensar comportamentos infantis e punir comportamentos maduros.
As redes sociais operam por engajamento, e o engajamento é maximizado pela emoção intensa e rápida. Indignação, escárnio, humilhação pública rendem mais do que nuance, análise longa ou construção de consenso. Um argumento complexo que reconhece dois lados não viraliza. Uma imagem que ridiculariza o adversário, sim. O algoritmo não tem ideologia, mas tem consequências ideológicas precisas: ele sistematicamente amplifica o que é simples, tribal e emocional, e deixa morrer o que é complexo, plural e refletido.
Some-se a isso o ciclo cada vez mais curto das notícias. Problemas políticos reais são lentos. Exigem negociação, paciência, concessão, e os resultados chegam em anos ou décadas. O ambiente digital opera em horas. A expectativa de solução imediata que ele cultiva é estruturalmente incompatível com o tempo que a política democrática precisa para funcionar. O cidadão infantilizado quer resultado agora, e quando não vem, conclui que o sistema é corrupto ou que o líder errado está no poder.
Nesse ambiente, o político moderno precisa ser carismático, viralizável e compartilhável antes de ser competente. A figura pública torna-se personagem. E personagens não governam, eles representam. A política vira produto cultural, e o eleitor vira consumidor que escolhe a identidade com que quer se identificar, não o programa que quer ver executado.
Não estou defendendo que a emoção não tenha lugar na política. Ela sempre teve, e é legítimo que tenha. O problema não é sentir. É quando o sentimento substitui o julgamento em vez de informá-lo. Quando a identificação afetiva com um líder torna impossível reconhecer seus erros. Quando discordar de alguém do próprio campo vira traição, e concordar com alguém do campo oposto vira covardia.
Historicamente, a democracia dependia de uma figura que levou séculos para ser construída: o cidadão. Não o súdito que obedece, não o consumidor que escolhe, mas alguém que participa, se informa, delibera, e aceita derrotas legítimas porque compreende que o processo é maior do que qualquer resultado específico. Essa figura não nasce espontaneamente. É produto de cultura, de educação, de instituições que a cultivam.
Quando a política vira torcida, as instituições ficam sem dono. Porque instituições não são construídas por fãs. São construídas por pessoas dispostas a defender o processo mesmo quando o resultado as desagrada. E essa disposição é, talvez, a forma mais exigente e mais necessária de maturidade cívica.
Meu primo tinha menos de dez anos. Tinha desculpa. A questão que fica, enquanto o jingle ainda ressoa de algum lugar na memória, é quantos de nós crescemos de fato e quantos apenas trocamos o candidato, mantendo a mesma relação.
Uma democracia não morre só quando alguém toma o poder à força. Morre também quando os cidadãos deixam de querer ser cidadãos.
