Outro dia, no meio de uma crônica, parei numa frase.
Era uma frase boa. Dizia com precisão o que eu queria dizer, encaixava no argumento, tinha o peso certo. Eu a escrevi sem hesitar, como se fosse minha. Só depois, relendo, senti que havia algo fora do lugar. Não na frase. Na autoria. Fiquei parado…
Acordei lento naquela manhã. O tipo de lentidão que não é sono; é peso. O corpo obedece, a disciplina funciona, a bicicleta, o café, a rotina toda se cumpre. Mas há um arrasto que nenhuma xícara resolve.
Quando entrei no carro com Cadu, soltei o que sentia antes de pensar:
— Que preguiça. Morrendo de…
Era manhã de sábado. A casa ainda dormia. Eu escrolava sem direção quando parei numa foto que eu mesmo havia tirado: a Garganta do Embaú, o Vale do Paraíba se abrindo abaixo, a Serra do Mar ao fundo, e entre os dois um mar de morros que não terminava.
Não foi a beleza que me…
Continuo em minha saga de revisar Rios de Sangue e Ouro e há algo ali que não consigo mais segurar: Joaquim não me obedece. Não da maneira que ele obedecia. Quando o forço a agir como antes, ele resiste com uma passividade que é, em si mesma, uma forma de protesto.
Comecei a escrever na…
Não sou do tipo emotivo. Não tenho lembranças que chegam de súbito e me fazem parar no meio de uma calçada, com os olhos marejados e uma explicação impossível para dar a quem passa. Talvez até inveje quem seja assim. Só não sou.
Mas, de vez em quando, acordo pensando na minha avó.
Faz catorze…
Nasci no final da década de 1970; quando o futuro ainda era um desenho animado.
Ele vinha em cores saturadas, com carros voadores e casas suspensas no ar. Parecia distante. Quase mítico. Algo que pertencia aos filhos dos nossos filhos.
A realidade, porém, tinha cheiro de papel. Tinha o barulho metálico das fichas caindo no…
