Fui a um funeral faz algum tempo. Ela e o esposo eram meus padrinhos de casamento. Um casal que sempre olhei como se olha para um mapa: não para copiar o percurso, mas para entender que o destino existe. Que é possível chegar.
No velório, vi o que não sabia nomear. Não era apenas dor. Era algo estrutural, como se a metade de uma frase tivesse sumido e a outra metade continuasse lá, suspensa, à espera de uma conclusão que não viria mais.
Foi ali que Vinícius de Moraes deixou de ser poesia e se tornou realidade.
Há um trecho do Soneto de Fidelidade que sempre li com uma espécie de resignação fatalista. Como se Vinícius estivesse apenas registrando a inevitabilidade:
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Mas naquele funeral entendi que ele não está falando da morte em abstrato. Está falando da morte quando se está a dois. A morte para si é a angústia de todo vivente; universal, irremediável. Mas a morte daquele que se ama é outra coisa: é a solidão de quem fica com o amor inteiro nas mãos e ninguém com quem dividi-lo.
Aí faz todo sentido o que vem depois:
Eu possa me dizer do amor (que tive)
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure
Não é resignação. É a única forma honesta de amar: sem a ilusão de que o amor vence o tempo, mas com a certeza de que, enquanto durou, foi total. A chama não envergonha por apagar; envergonha por não ter ardido.
O luto é o preço de um amor que não coube no tempo.
Quem fica continua a amar. E o que resta, além do amor, é a solidão. Não a solidão vazia. A solidão plena, habitada por uma presença que não está mais aqui, mas ainda organiza o espaço dos vivos.
Porque a memória não é arquivo, não é gaveta onde se guarda o que passou. É presença ativa. Ela reorganiza o presente, altera escolhas, pesa sobre gestos que parecem automáticos e não são.
Você continua a não fazer as coisas que ela te ensinou que eram erradas. Não senta no lugar dela à mesa. Vai à missa no mesmo horário. Senta nos mesmos bancos. Não por hábito. Por fidelidade. Uma fidelidade que não precisa de destinatário para existir.
O amor não deixou de existir. Ele apenas perdeu a pessoa com quem era compartilhado. E então se fecha sobre si mesmo, como uma concha: torna-se monólogo onde era diálogo. Não silêncio; conversa que continua dentro de quem ficou.
Não vivi isso. Espero que nem viva. Se viver, que seja daqui muito tempo. Mas isso não está em minhas mãos.
O que está em minhas mãos é o agora: amar de modo que, se um dia sobrar apenas a memória, ela ainda seja capaz de reorganizar o presente de quem fica.
Quem morre não leva o amor embora.
Deixa o amor em quem fica. E quem fica carrega isso como se carrega uma chama: com cuidado para não apagar, com humildade para saber que ela não é sua. Nunca foi. Era dos dois.
E é assim que o amor permanece: sem resposta, mas não sem voz.
