A Sede que Não Inventamos

Tinha vinte e cinco anos em 18 de abril de 2005. A televisão estava ligada no Jornal Nacional, que cobria o conclave em Roma, e por alguns segundos passou um trecho da homilia do então Cardeal Ratzinger na Missa Pro Eligendo Romano Pontifice. Não entendi tudo na hora (tive que procurar o Padre Norberto Prittwitz depois para começar a arranhar o assunto), mas uma frase ficou: ter uma fé clara, segundo o Credo da Igreja, é frequentemente classificado como fundamentalismo, enquanto o relativismo, deixar-se levar por qualquer vento de doutrina, aparece como a única atitude à altura dos tempos atuais. Vai-se constituindo uma ditadura do relativismo que nada reconhece como definitivo, e que deixa como última medida apenas o próprio eu e suas vontades.

Vinte anos depois, o alerta envelheceu mal. Não porque estivesse errado, mas porque se cumpriu além do esperado. Hoje existem católicos de direita, católicos de esquerda, católicos LGBTQIA+, católicos pelo direito de decidir. Cada grupo escolhendo qual fração da Verdade está disposto a aceitar, como quem monta um prato num bufê.

Isso me devolve a uma pergunta que nunca deixou de me fascinar: o que é a verdade? Não como exercício acadêmico, mas como necessidade prática. Pense no que realmente precisamos para sobreviver: comida, água, abrigo. Isso enquanto indivíduos. Sexo, para sobrevivermos enquanto espécie. A verdade não está nessa lista. Não morremos de fome por falta dela. E ainda assim a perseguimos com uma intensidade que nenhuma outra necessidade não-vital provoca. Filósofos gastaram a vida inteira atrás dela. Sentimos a falta dela como se sente sede.

Há algo estranho nisso. Como sentir necessidade de algo que não existe? A própria intensidade da busca não seria, em si, um indício de que há algo real do outro lado dela?

Quando Pilatos pergunta a Cristo o que é a verdade, ele não está fazendo apenas uma pergunta filosófica. Está fazendo a pergunta civilizacional mais decisiva de todas e ainda assim não percebeu que já tinha a resposta diante dele.

Toda sociedade precisa decidir se existe verdade, se podemos conhecê-la, ou se tudo é apenas interpretação. E a resposta a essa pergunta muda tudo. Na religião, na moral, na ciência, na política. Durante séculos, a pergunta era como encontrar a verdade. Hoje, a pergunta recuou um passo: existe verdade? Essa regressão é uma mudança gigantesca, talvez a maior mudança silenciosa do pensamento ocidental nos últimos dois séculos.

Os grandes pensadores discordavam sobre quase tudo, mas partiam de um pressuposto comum: havia algo verdadeiro a ser encontrado. O relativismo contemporâneo introduz uma hipótese diferente: talvez não exista verdade, apenas perspectivas. Mas essa hipótese tropeça na própria formulação. Dizer “a verdade não existe” é enunciar algo que se pretende verdadeiro. O relativismo radical, levado a sério, se autodestrói: para negar a verdade, precisa pressupor uma.

A ciência costuma ser apresentada como o reino seguro da verdade, mas Karl Popper observou algo mais honesto: ela não produz verdades definitivas, produz modelos cada vez menos errados. Newton parecia definitivo até Einstein mostrar seus limites. Einstein, por sua vez, provavelmente tem limites que ainda não enxergamos. A ciência avança precisamente porque admite sua própria incompletude. O que é o oposto de relativismo. É humildade diante de uma verdade que ainda não foi inteiramente alcançada, não a negação de que ela exista.

Há também a verdade histórica, talvez a mais contestada nos debates contemporâneos. Os fatos existem (a batalha ocorreu, as mortes ocorreram) mas o acesso a esses fatos é mediado por narrativas, e aprendemos cedo que a história costuma ser escrita pelos vencedores. Daí muita gente concluir que não existe verdade histórica alguma. Mas essa conclusão não segue da premissa. O fato de enxergarmos a paisagem por janelas diferentes não significa que não exista paisagem. Significa apenas que nenhuma janela sozinha mostra tudo.

A verdade moral é a mais sensível de todas e a que mais expõe a incoerência do relativismo na prática. É fácil polarizar discussões sobre moral sexual. É quase impossível encontrar alguém, mesmo entre os relativistas mais convictos, que aceite a frase “torturar uma criança pode ser certo, dependendo da cultura”. Se a moral fosse mera convenção social, essa possibilidade teria que estar sempre em aberto. Ninguém a aceita de fato. O que isso revela é que mesmo quem nega a verdade moral em teoria continua vivendo como se ela existisse.

Agostinho via essa necessidade pela verdade como uma forma de nostalgia. Algo da mesma família do que nos move a comer, a beber, a amar. E assim como nossas necessidades físicas conduzem à sobrevivência do indivíduo e da espécie, a necessidade pela verdade conduz a algo também. Queremos a verdade sobre o universo, sobre nós mesmos, sobre o amor, sobre o bem, porque não nos contentamos com fragmentos. Algo em nós insiste que há um todo e que esse todo está fora de nós, e ao mesmo tempo dentro, esperando ser reconhecido.

Tomás de Aquino definiu a verdade com uma elegância que ainda resiste a qualquer ataque: a adequação entre o intelecto e a realidade. Quando o que pensamos corresponde ao que é, há verdade. A formulação parece simples, mas contém uma consequência que muda tudo: a verdade não depende de nós. Ela existe antes da nossa opinião, e continuaria existindo mesmo que ninguém a pensasse. Não a inventamos. Apenas, às vezes, a alcançamos.

E é aqui que a afirmação de Cristo deixa de ser apenas uma frase bonita de catequese e se revela metafisicamente radical: eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Não disse que ensinava a verdade, nem que a conhecia melhor do que os outros. Disse que era a verdade. Isso desloca a verdade do campo da proposição para o campo da Pessoa. Deixa de ser apenas correspondência entre intelecto e realidade; torna-se relação. Buscar a verdade, nessa formulação, não é apenas acertar uma equação sobre o mundo. É reconhecer Alguém.

Talvez seja por isso que a sede nunca se satisfaz com fragmentos, por mais corretos que sejam. Um fato verificado não aplaca a inquietação inteira. Uma teoria confirmada não encerra a busca. Porque o que se procura, no fundo de cada busca particular, não é apenas informação; é repouso. “Inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti”, escreveu Agostinho num momento de clareza que resume séculos de filosofia em uma frase.

O relativismo, ao dissolver a verdade em perspectivas infinitas, promete libertação e entrega isolamento. Porque se não há verdade comum, não há também conversa real possível. Apenas a justaposição de opiniões que ninguém precisa revisar. A ditadura que Ratzinger nomeou em 2005 não é a ditadura de uma ideia imposta a todos. É a ditadura de cada um trancado dentro da própria certeza provisória, sem porta de saída e sem necessidade de prestar contas a nada além do próprio eu.

A alternativa não é o fundamentalismo que aquela homilia já antecipava como acusação fácil. É reconhecer que existe uma verdade que não fabricamos, que nos antecede e nos excede e que, segundo a fé cristã, tem rosto.

Quem sente sede não inventa a água. Apenas a reconhece quando a encontra.

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