Quando assumi a direção adjunta, em 2021, resolvi fazer uma coisa que ninguém me pediu e que, na época, parecia quase um desperdício de tempo: fiquei seis meses só observando. Dezesseis anos na Secretaria Municipal de Educação, passando por estatísticas, recursos humanos, compras, prestação de contas, eu conhecia o esqueleto burocrático da escola melhor do que a maioria. Sabia como uma folha de ponto chegava ao sistema, como um processo licitatório deveria tramitar, como uma prestação de contas precisava ser organizada para não ser glosada.
O que eu não sabia era o que acontecia antes de tudo isso. As decisões que davam causa às rotinas. O que ocorria numa sala de aula às oito da manhã de uma terça-feira fria para que uma criança voltasse para casa tendo aprendido (ou não) alguma coisa.
Minha esposa, professora por mais de trinta anos, orientadora por vinte, ex-diretora, me acompanhou nesse processo. Ela não me ensinou respostas. Me ensinou a fazer perguntas. O resto foi observação, estudo e a necessidade de reagir diante de cada desafio antes de tentar antecipá-lo. Mas o principal recurso que eu trazia, e que só fui reconhecer com o tempo, não era técnico. Era a consciência viva da minha própria ignorância.
O maior inimigo da inteligência não é a ignorância. É a certeza prematura de que já compreendemos o suficiente.
Há uma frase de Sócrates que ressoa há mais de dois mil anos, quase sempre pela metade. Citamos o “só sei que nada sei” como expressão de modéstia intelectual, como se fosse um gesto de humildade decorativa. Mas a força da frase não está na renúncia ao saber. Está na consequência dessa renúncia: quem reconhece que não sabe, investiga. Quem acredita que já sabe, para.
Para Sócrates, o verdadeiro ignorante não era quem desconhecia algo. Ignorância, nesse sentido, é condição universal; ninguém escapa dela. O verdadeiro ignorante era quem desconhecia a própria ignorância. Quem havia transformado a opinião em certeza, o fragmento em sistema, o vídeo de um minuto e meio em convicção inabalável sobre metabolismo lipídico ou geopolítica do Oriente Médio. Esse, para o filósofo, era o caso perdido: não porque fosse burro, mas porque havia fechado a porta por dentro.
O reconhecimento da ignorância não é o oposto da inteligência. É, muitas vezes, sua condição inicial. O pensamento nasce menos de respostas do que da consciência aguda das próprias lacunas. Quem não sente o peso do que não sabe raramente sente urgência em aprender.
Vivemos um tempo estranho. Nunca o acesso à informação foi tão amplo e tão barato. E, talvez por isso mesmo, nunca a ilusão de compreensão foi tão generalizada. Confundimos contato com domínio. Confundimos exposição com entendimento. Um algoritmo que nos mostra três vídeos sobre física quântica nos deixa com a sensação difusa de que sabemos algo sobre física quântica, quando o que temos, na melhor das hipóteses, é uma metáfora sobre física quântica, contada por alguém que também tem uma metáfora.
O resultado é uma epidemia silenciosa de certezas mal fundamentadas. O aluno que desafia o professor de história porque viu um vídeo que “destrói a narrativa oficial” sem ter noção de que história é, por natureza, disputa de narrativas, e que o vídeo também é narrativa. O paciente que contraria o médico com base numa live de nutrição assistida enquanto esperava o ônibus. O gestor que decide uma política pública apoiado no senso comum amplificado pelas redes, convicto de estar exercendo pensamento crítico quando está apenas trocando uma autoridade por outra, menos qualificada.
Há ainda um segundo problema, menos óbvio e talvez mais grave: o conhecimento que, em vez de abrir, fecha. Quem nunca ouviu a expressão “sem saber que era impossível, foi lá e fez”? Há algo verdadeiro aí, para além da cultura de autoajuda que sequestrou a frase. O conhecimento acumulado pode gerar uma espécie de cegueira funcional: quem sabe demais sobre como as coisas sempre foram feitas tem dificuldade em imaginar como poderiam ser feitas de outro modo. O progresso intelectual (e não apenas o tecnológico) depende, com alguma regularidade, da capacidade de admitir que a verdade dominante pode estar errada. Ou incompleta. Ou simplesmente provisória.
As verdades do conhecimento são quase sempre provisórias. Quem trabalha de perto com ciência sabe disso. Quem trabalha de perto com educação também deveria saber. O manual pedagógico que era consenso em 1990 foi parcialmente revisto em 2005 e contestado em 2018. Não porque os pesquisadores anteriores fossem incompetentes, mas porque o conhecimento avança exatamente por não se fechar em si mesmo.
Gosto de ouvir pessoas realmente inteligentes falando. Há um sinal que aprendi a reconhecer: nas frases delas ressoa uma certa dúvida. Não é fraqueza. Não é indecisão. É a marca de quem sabe que o mapa não é o território, que a explicação não é o fenômeno, que compreender algo completamente é uma aspiração, não uma chegada. As pessoas menos inteligentes que já encontrei compartilhavam uma característica: eram muito certas de muita coisa.
Talvez uma das funções mais importantes de um educador não seja eliminar a ignorância do aluno. O que seria, em qualquer caso, uma tarefa impossível e provavelmente indesejável. Seja ensiná-lo a identificá-la. A nomeá-la sem vergonha. A conviver honestamente com ela, como se convive com um limite que não é derrota, mas ponto de partida. Um aluno que sai da escola sabendo o que não sabe é mais bem educado do que um aluno que sai convicto de que sabe o que não sabe.
Exerci minha função enquanto pude manter isso vivo. Enquanto a consciência da minha ignorância foi maior do que a tentação de agir como se eu já soubesse o suficiente. No dia em que essa proporção se invertesse, seria hora de parar ou de recomeçar a observar, como fiz nos primeiros seis meses, quando meu maior trunfo era não ter ainda nenhuma certeza para defender.
A inteligência não começa quando aprendemos a responder. Começa quando aprendemos a hesitar.
