Nas Confissões, há um momento em que o jovem Agostinho se muda para Milão e encontra Ambrósio. O bispo que, sem sequer tentar, acabaria por convertê-lo e batizá-lo. É uma das cenas mais silenciosas do livro. Ambrósio não debate com Agostinho, não o persuade com argumentos, não se apresenta como mestre. Simplesmente existe com uma presença tão densa que modifica o espaço ao redor.
O que me tocou, lendo aquele trecho, foi perceber que a narrativa de Agostinho dava textura e personalidade a um homem cujos escritos eu já conhecia. Eu havia lido Ambrósio. Mas foi só quando o vi pelos olhos de quem o conheceu em vida que ele ganhou carne. Os escritos do bispo são precisos, teologicamente rigorosos, belos em seu próprio registro. Mas faltava neles o que Agostinho entregou: o peso de uma presença.
Isso me levou a uma pergunta que não consegui largar.
Escrever significa perder algo. Significa submeter o pensamento a uma forma e toda forma comporta limites.
Não é a mesma coisa ler as anotações de um colega e assistir a uma aula de um professor brilhante. O texto é sempre uma versão reduzida de quem o escreveu. É o que sobrou depois que o tom de voz, o silêncio entre as frases, o gesto que antecede a conclusão mais importante foram filtrados pela língua escrita. Quando lemos um autor morto, lemos uma sombra. Mais vívida do que o esquecimento, mas ainda assim uma sombra.
Por que, então, continuamos a escrever?
A resposta é simples e devastadora. Porque há vida. E viver é uma forma de resistência à morte e ao esquecimento.
Há uma frase atribuída ao poeta cubano José Martí que resume o impulso com clareza: há três coisas que cada pessoa deve fazer durante a vida: plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro. A árvore dá sombra a quem vem depois. O filho carrega o nome e algo do caráter de quem o criou. O livro guarda o que nenhum dos dois pode guardar: o pensamento, a maneira de ver, o modo específico pelo qual uma pessoa particular organizou o mundo dentro de si.
Mas a ideia é muito mais antiga do que Martí. O Talmude e o folclore árabe já falavam sobre o dever do indivíduo de perpetuar a vida, a sabedoria e a terra para as próximas gerações. O impulso de deixar algo atrás é anterior a qualquer literatura. É uma das formas mais antigas pelas quais os seres humanos tentaram fazer sentido da própria finitude.
Somos a única espécie que sabe que vai morrer. E passamos boa parte de nossas vidas tentando contornar esse fato, não biologicamente, porque isso não está ao nosso alcance, mas de outras formas. Filhos, obras, nomes gravados em pedra ou em papel. A escrita é apenas uma das muitas maneiras pelas quais o ser humano recusa aceitar que sua passagem pelo mundo seja completamente silenciosa.
Dentro de no máximo cem anos, não estarei mais aqui. Provavelmente, poucos se lembrarão que existi. Talvez apareça como um nome numa árvore genealógica que alguém exibirá com orgulho sem saber exatamente quem fui.
Escrever é, para mim, ao mesmo tempo uma forma de resistir a esse apagamento e de criar um legado que começa com o destinatário primeiro dele, meu filho, e termina com a sobrevivência, ainda que parcial, das coisas que penso. Não tenho ilusão de que serei lembrado. Tenho apenas a esperança de que algo do que escrevi, algum dia, encontre alguém que precise daquilo exatamente naquele momento.
É suficiente. Tem que ser.
Os autores que me formaram vivem em mim sem que eu perceba na maior parte do tempo. Agostinho está na minha obsessão com a confissão como forma literária. A ideia de que revelar o que se errou pode ser mais iluminador do que exibir o que se acertou. Ambrósio está na minha convicção de que presença diz mais do que argumento. Tomás de Aquino está na minha tendência de não largar uma pergunta antes de tê-la virado de todos os lados. Eça de Queirós está na ironia que aparece nos momentos em que eu menos planejo. Érico Veríssimo está no cuidado com que trato o Brasil como matéria literária. A ideia de que este país, com toda a sua brutalidade e beleza, merece ser contado com a seriedade que se reserva aos grandes temas humanos.
Nenhum deles pediu para viver em mim. Simplesmente escreveram, e o que escreveram entrou e ficou. Modificou sem pedir licença. Isso é o que os livros fazem. Não os que lemos e esquecemos, mas os que lemos no momento certo, quando estávamos vulneráveis o suficiente para ser mudados.
As pessoas que lerem o que escrevo no futuro (se é que lerão) terão acesso ao meu pensamento, aos meus valores, à forma como organizei o mundo dentro de mim. Poderão concordar. Poderão discordar. Poderão ignorar. Mas ainda que parcialmente, ainda que sem perceber, eu estarei vivendo dentro delas, como Agostinho e Ambrósio e todos os outros vivem em mim.
É uma forma de imortalidade modesta. Não é a glória nem o bronze nem o nome gravado na fachada de um edifício. É algo mais íntimo e, por isso, mais real: a possibilidade de que uma frase escrita hoje, por alguém que ninguém se lembrará, mude silenciosamente a forma como um desconhecido enxerga o mundo décadas depois.
É por isso que continuamos a escrever. Não apesar da perda; sabendo dela. Sabendo que o texto é uma sombra, que a voz não se transmite, que o gesto que antecede a frase mais importante fica de fora. E mesmo assim escrevendo, porque a sombra é melhor do que o silêncio.
Escrevo para que algo de mim viva dentro de alguém que ainda não nasceu, sem que ele precise saber meu nome.
