O sinal da fábrica apitava às sete horas.
Rogério ouvia aquele apito desde 1985 e o corpo já não precisava de relógio. Acordava antes, esticava os ossos, vestia a camisa com o movimento lento de quem não tem pressa porque sabe exatamente quanto tempo cada coisa leva. Da portaria ao vestiário, dois minutos. Do vestiário…
Nasci no final da década de 1970; quando o futuro ainda era um desenho animado.
Ele vinha em cores saturadas, com carros voadores e casas suspensas no ar. Parecia distante. Quase mítico. Algo que pertencia aos filhos dos nossos filhos.
A realidade, porém, tinha cheiro de papel. Tinha o barulho metálico das fichas caindo no…
