Carlinho Fagundes aprendeu a nadar antes de aprender a andar de bicicleta, e aprendeu as duas coisas com o avô.
A casa da família na Rua Eduardo Junqueira tinha o trem na frente e o Rio Paraíba nos fundos. Duas presenças constantes, dois barulhos distintos que Carlinho aprendeu a separar no escuro antes de abrir…
No bairro Barbará, em Barra Mansa, as casas eram todas iguais e as mais pobres ficavam todas na beira da linha. Fileiras de casinhas de tijolo que a Metalúrgica Barbará havia construído para os operários, com o mesmo telhado, a mesma varanda estreita, o mesmo quintal pequeno que terminava onde começava o talude da ferrovia.…
Antes de ser maquinista, João Mendes foi um menino que morava numa casa pequena de fundo de quintal na Várzea da Oficina, e a Várzea da Oficina era um bairro de Barra Mansa que cresceu ao lado dos trilhos como crescem as coisas que não têm outra opção: adaptando-se à vizinhança barulhenta, aprendendo a dormir…
Fernanda desceu ao arquivo da 2ª Vara Cível às oito e quarenta e três da manhã, fones de ouvido no lugar, chicletes na boca, com a expressão de quem tem trabalho suficiente para encher o dia e nenhuma ilusão de que o dia será interessante.
Dezenove anos, terceiro período de Ciência da Computação, emprego de…
Havia uma poltrona num canto da sala grande da fazenda onde o avô sempre sentava.
Antônio não conseguia se lembrar de tê-lo visto em outro lugar dentro de casa. No alpendre, sim, nos pastos, no curral, na varanda de tarde, mas dentro da casa era aquela poltrona, e sob ela havia um tapete gasto de…
Francisco dos Reis acordava cedo porque os homens públicos precisam ser vistos acordando cedo.
Às sete da manhã sua voz já estava no ar. Não metaforicamente, mas de fato, pela Rádio Cultura de Ataxerxes, onde mantinha um quadro semanal chamado Conversa com o Povo que durava exatamente o tempo necessário para que quem ligasse o…
Antes de haver escrita, havia Naram.
Não é exatamente verdade. Havia escrita antes de Naram, havia contas e nomes de reis gravados em argila, havia listas de grãos e registros de débito. Mas havia Naram, e havia o que Naram sabia, e essas eram duas coisas que não precisavam uma da outra.
Ele era velho…
O sinal da fábrica apitava às sete horas.
Rogério ouvia aquele apito desde 1985 e o corpo já não precisava de relógio. Acordava antes, esticava os ossos, vestia a camisa com o movimento lento de quem não tem pressa porque sabe exatamente quanto tempo cada coisa leva. Da portaria ao vestiário, dois minutos. Do vestiário…
A plataforma da estação de Barra Mansa cheirava a carvão e a despedida.
Era sábado, quinze de janeiro de 1944, e o trem para o Rio de Janeiro esperava com a impaciência das máquinas: vapor vivo, rodas paradas, como um cavalo que morde o freio. Na plataforma, a aglomeração habitual de mães e noivas e…
A Missão Sagitarius, lançada em 2089, atingiu a heliopausa após décadas de viagem a 10% da velocidade da luz. Ao cruzar essa fronteira, o núcleo da nave atuou como acelerador de massa: ejetou a Torre de Observação para trás pelo efeito de recuo, zerando sua inércia. A Torre estacionou no vazio interestelar, sem tripulação, operada…
O teto do corredor era alto demais para que os passos deixassem eco. Era essa a primeira coisa que Valéria havia aprendido sobre o Paço de São Cristóvão: a pedra ali absorvia os sons como absorve os segredos completamente, sem deixar rastro.
Ela dobrou o corredor com a bandeja equilibrada na palma direita, a cabeça…
Otávio ficou parado no vão da porta por um tempo que não soube medir. A secretaria estava vazia. Não apenas desocupada. Vazia de um modo mais fundo, como se o silêncio tivesse substância, como se pudesse ser tocado. As cadeiras no lugar. As prateleiras ainda com as pastas, finas demais para o que já foram.…
