Assisti ao jogo contra a Escócia com uma sensação que andava esquecida. Não foi a vitória em si; foi a maneira. A seleção jogou, por alguns instantes, como eu esperava que ela jogasse. Uma sombra do que já foi, talvez, mas uma sombra reconhecível. E algo se moveu em mim.
Na manhã seguinte percebi que…
Tinha vinte e cinco anos em 18 de abril de 2005. A televisão estava ligada no Jornal Nacional, que cobria o conclave em Roma, e por alguns segundos passou um trecho da homilia do então Cardeal Ratzinger na Missa Pro Eligendo Romano Pontifice. Não entendi tudo na hora (tive que procurar o Padre Norberto Prittwitz…
Todo domingo acordo antes dos outros. Há uma ordem nisso que ninguém estabeleceu em voz alta, mas que se fixou como lei: a semana é corrida, o sábado pertence às tarefas da casa, e o domingo de manhã é nosso. Acordo mais cedo, pego o pão de queijo que preparei antes, acendo o forno, passo…
Acordei lento naquela manhã. O tipo de lentidão que não é sono; é peso. O corpo obedece, a disciplina funciona, a bicicleta, o café, a rotina toda se cumpre. Mas há um arrasto que nenhuma xícara resolve.
Quando entrei no carro com Cadu, soltei o que sentia antes de pensar:
— Que preguiça. Morrendo de…
Era manhã de sábado. A casa ainda dormia. Eu escrolava sem direção quando parei numa foto que eu mesmo havia tirado: a Garganta do Embaú, o Vale do Paraíba se abrindo abaixo, a Serra do Mar ao fundo, e entre os dois um mar de morros que não terminava.
Não foi a beleza que me…
Antes de haver escrita, havia Naram.
Não é exatamente verdade. Havia escrita antes de Naram, havia contas e nomes de reis gravados em argila, havia listas de grãos e registros de débito. Mas havia Naram, e havia o que Naram sabia, e essas eram duas coisas que não precisavam uma da outra.
Ele era velho…
Banho. Roupa. Trabalho. Volta. TV. Sono. Repetir.
Tem um momento em que a rotina para de ser estrutura e começa a ser apenas inércia. Você continua fazendo tudo mas a pergunta que antes não aparecia agora aparece toda manhã, antes mesmo de você estar completamente acordado: por quê?
E a resposta que vem é sempre…
Todo domingo havia um ritual. Meu pai saía cedo, voltava com o jornal embaixo do braço e quadrinhos para mim e meus irmãos. Durante a semana, o telejornal era sagrado. Ninguém falava enquanto o apresentador falava. Era assim que ele se informava, e sempre foi assim, na minha memória.
Mas ele mesmo me contou que…
Perdi as contas de quantas vezes parei em Congonhas. Sempre foi assim: ponto de passagem, descanso de estrada, pausa entre o que ficou e o que ainda está por vir. Desta última vez, ia em direção a Diamantina. O carro cheio, o cansaço, e os doze profetas de Aleijadinho no alto do adro (como sempre…
Havia outras pessoas na sala de espera, mas eu só reparei nela quando ela se levantou. Uma amiga. Alguém com quem muitas vezes não concordo, mas por quem tenho admiração legítima (do tipo que não precisa de afinidade para existir). O consultório médico é um dos poucos lugares onde a vida nos coloca lado a…
Era uma noite comum. A mesa posta, o jantar ainda nos pratos, e uma conversa que começou sem querer sobre política ou talvez sobre religião, não me lembro bem. O que me lembro é do que aconteceu quando meu filho respondeu.
Ele tem catorze anos. E falou como eu falava aos trinta.
Não era imitação.…
Fui eu que recebi o pólipo em minhas mãos para levá-lo ao laboratório. Era grande demais para ser algo trivial. Senti um calafrio. Não o tipo que a temperatura provoca, mas aquele que surge quando a mente percebe algo antes de conseguir formular o que percebeu.
Os dias seguintes não trouxeram respostas imediatas. Trouxeram silêncio.…
