Havia uma poltrona num canto da sala grande da fazenda onde o avô sempre sentava.
Antônio não conseguia se lembrar de tê-lo visto em outro lugar dentro de casa. No alpendre, sim, nos pastos, no curral, na varanda de tarde, mas dentro da casa era aquela poltrona, e sob ela havia um tapete gasto de…
Antes de haver escrita, havia Naram.
Não é exatamente verdade. Havia escrita antes de Naram, havia contas e nomes de reis gravados em argila, havia listas de grãos e registros de débito. Mas havia Naram, e havia o que Naram sabia, e essas eram duas coisas que não precisavam uma da outra.
Ele era velho…
Quando o personagem histórico está suficientemente morto, podemos fazer quase tudo com ele. Inventar silêncios. Preencher lacunas. Emprestar intenções que os documentos não registraram. Ninguém cobra a dívida.
Mas há personagens que não estão suficientemente mortos. Não porque ainda vivam, mas porque ainda habitam o imaginário de quem lê. Narrar esses personagens é outro tipo…
Como uma cidade decide o que merece continuar vivo e o que precisa morrer de novo.
Três tiros ecoaram no silêncio da manhã. Pop. Pop. Pop.
O Ford preto arrancou antes que alguém abrisse a janela. Subiu a ladeira em direção à Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, cuspindo pedra e poeira como se…
