A reunião era comum: sala fechada, opiniões alinhadas, o ritmo previsível de quem já sabe o que vai dizer antes de abrir a boca. Quando expus minha posição (polêmica, sabia disso, mas coerente com tudo o que construíramos juntos) o silêncio que se instalou não era o silêncio da reflexão. Era o silêncio de quem…
Não sou do tipo emotivo. Não tenho lembranças que chegam de súbito e me fazem parar no meio de uma calçada, com os olhos marejados e uma explicação impossível para dar a quem passa. Talvez até inveje quem seja assim. Só não sou.
Mas, de vez em quando, acordo pensando na minha avó.
Faz catorze…
Há uma pergunta que atravessa silenciosamente tanto a física quanto a teologia, ainda que raramente seja colocada com a devida crueza: se o tempo já existe como totalidade (se passado, presente e futuro coexistem numa única estrutura) o que exatamente significa ser livre?
Não cheguei a essa pergunta por um caminho acadêmico. Cheguei por uma…
Eu tinha quarenta anos quando isso aconteceu. Estava num açougue, numa daquelas conversas sem destino que se travam com o proprietário enquanto ele corta a carne. Um senhor que estava ali perto resolveu participar. Em algum momento soltei minha idade. O homem olhou para mim com espanto genuíno e disse: jurava que você tinha uns…
Todo ano é assim. Janeiro chega e, com ele, a certeza das férias à beira-mar. São pelo menos vinte dias de sol, sal na pele e tempo suspenso. Neste ano, o destino foi o Ceará — terra generosa de ventos, falésias e praias que parecem não ter fim.
Mal havíamos chegado a Canoa Quebrada quando…
Às vezes, relendo meus próprios diários, percebo uma estranheza silenciosa na forma como escrevo. Digo que “meu cérebro cria” com a mesma naturalidade com que diria que “meu coração bombeia sangue” ou que “meus rins filtram impurezas”. Como se o cérebro fosse apenas mais um órgão cumprindo sua função, importante, sem dúvida, mas ainda assim…
Há cenas tão banais que passariam despercebidas não fosse o fato de carregarem dentro delas pequenas máquinas de pensar. Tomemos, por exemplo, a mesa de doces. Não uma mesa gloriosa de casamento, mas aquela da tarde comum, no aniversário improvisado, quando alguém abre a caixa de brigadeiros e, subitamente, toda a sala silencia. No centro…
Há uma tensão silenciosa que acompanha todo casamento, uma espécie de fio invisível que vibra entre dois mundos particulares. Não se fala muito sobre isso, talvez por pudor, talvez por receio de admitir o óbvio: convivemos entre aquilo que esperamos do outro e aquilo que o outro, sendo quem é, pode nos oferecer.
Vivemos construindo…
Há um barulho novo no ar. Ele não vem dos motores, nem das multidões nas ruas — vem das telas. É o som da exposição, da pressa em existir. Vivemos uma época em que tudo precisa ser mostrado, e de preferência com algum exagero. Não basta estar; é preciso aparecer. E, na ânsia de aparecer,…
Há certos cargos que concentram, como prisma, as contradições mais profundas de um país. O diretor escolar é um desses lugares. Não um mero profissional da educação, mas um ponto de tensão ética, um nó histórico onde forças divergentes se encontram e se atritam.
Sua função é menos administrativa do que ontológica: carregar o peso…
Todos os dias desperto com o mesmo temor: o de não ter nada a oferecer ao mundo. O de não encontrar, nas pequenas raspas do cotidiano, a matéria frágil de que são feitas as minhas palavras.
Minhas reflexões nascem das conversas silenciosas que travo comigo mesmo — diálogos tortos, inacabados, que às vezes levo dias…
Talvez seja porque o calendário virou de novo ou porque o corpo finalmente pediu trégua, mas hoje acordei com uma pergunta incômoda na cabeça: afinal, por que viajar?
A resposta fácil já conhecemos; porque se gosta, porque se descansa, porque se vê o novo. Mas isso explica pouco. É como tentar entender o mar olhando…
