Tinha vinte e cinco anos em 18 de abril de 2005. A televisão estava ligada no Jornal Nacional, que cobria o conclave em Roma, e por alguns segundos passou um trecho da homilia do então Cardeal Ratzinger na Missa Pro Eligendo Romano Pontifice. Não entendi tudo na hora (tive que procurar o Padre Norberto Prittwitz…
Passei por duas mortes de alunos nos quatro anos em que dirigi uma escola. Não é o tipo de coisa que se aprende a administrar. A primeira vez, fiquei parado no corredor depois que todos foram embora, olhando para a porta de uma sala que no dia seguinte estaria cheia de crianças que saberiam, de…
Há imagens que não se explicam na hora. Você as vê, fica parado mais do que pretendia, e segue. Mas elas ficam. Mais de uma década depois de visitar a Basílica de São Pedro, ainda penso na Pietà. Não pela escala, que é menor do que se imagina. Não pela perfeição técnica, embora seja desconcertante…
Tinha pouco mais de dez anos na primeira vez que li um livro sobre viagem no tempo. Já não me lembro o título. Só me lembro que era da coleção Vagalume e que o mundo, naqueles anos, cheirava à trilha sonora de De Volta para o Futuro. A imaginação de um menino não tem muito…
Era domingo na casa de minha mãe. Mesa posta, conversa de família, aquele ritmo lento que as tardes de domingo têm quando não há pressa para ir a lugar nenhum. Minha esposa ao lado. Do outro lado da mesa, um casal de tios. Mais de quarenta anos de casados, filhos criados, netos, a vida onde…
Perdi as contas de quantas vezes parei em Congonhas. Sempre foi assim: ponto de passagem, descanso de estrada, pausa entre o que ficou e o que ainda está por vir. Desta última vez, ia em direção a Diamantina. O carro cheio, o cansaço, e os doze profetas de Aleijadinho no alto do adro (como sempre…
A memória mais antiga que tenho com a religião não é de uma ideia. É de um cheiro. O perfume pesado de velas numa tarde de domingo, e a mão da avó do meu pai segurando a minha com uma firmeza tranquila, como quem não precisa explicar onde está nem para onde vai. Eu devia…
Fui eu que recebi o pólipo em minhas mãos para levá-lo ao laboratório. Era grande demais para ser algo trivial. Senti um calafrio. Não o tipo que a temperatura provoca, mas aquele que surge quando a mente percebe algo antes de conseguir formular o que percebeu.
Os dias seguintes não trouxeram respostas imediatas. Trouxeram silêncio.…
Faz mais de dez anos que estive em Turim, durante uma rara exposição do Santo Sudário. Não é algo que acontece com frequência e menos ainda que coincida com a presença de alguém que, como eu, carregava há anos um fascínio que não sabia nomear. Descobri o que era ao entrar na Catedral de São…
Há uma pergunta que atravessa silenciosamente tanto a física quanto a teologia, ainda que raramente seja colocada com a devida crueza: se o tempo já existe como totalidade (se passado, presente e futuro coexistem numa única estrutura) o que exatamente significa ser livre?
Não cheguei a essa pergunta por um caminho acadêmico. Cheguei por uma…
Durante muito tempo, minhas orações foram respondidas apenas pelo silêncio. Não o silêncio de quem ainda não encontrou as palavras, mas o silêncio de quem começa a suspeitar que do outro lado não há ninguém ouvindo. Ou pior: que havia, mas que agora havia partido. Essa é uma das experiências mais desorientadoras que conheço. E…
Nas memórias da minha infância, a liturgia da Semana Santa tinha peso, cheiro e som. Lembro-me do aroma denso do incenso pairando no ar, do ruído oco e fúnebre da matraca que substituía os sinos festivos, e das imagens dos santos cobertas por panos roxos, ocultando a glória para revelar o luto.
Mas, de todo…
