Barra Mansa, 16 de novembro de 1889. O telegrama chegou antes do sol.
O escrevente da estação dobrou o papel com cuidado excessivo antes de entregá-lo. O Barão de Guapy leu uma vez. Leu duas. Depois ficou parado na varanda com a xícara de café esfriando na mão, olhando para a rua ainda vazia, como…
Era maio de 2040, e o entardecer caía sobre o bairro como alguém que desiste.
Márcio caminhava devagar, as mãos nos bolsos, os olhos percorrendo fachadas que já foram orgulho de alguém. Restavam as marcas. A moldura de uma janela trabalhada em pedra, um portão de ferro com iniciais forjadas, uma calçada de mosaico português…
Era de manhã cedo quando Rafael deixou Ana e o filho na casa da sogra. Pedro tinha quatro meses. Estava dormindo quando o pai o colocou nos braços da avó. Pesado e morno, com aquele cheiro que Rafael já reconhecia como a coisa mais sua do mundo.
Entrou no carro. Em vez de virar à…
A alforria chegou num papel dobrado em quatro, com um selo e a data de outubro de 1877. Thomas segurou o documento com as duas mãos, como quem segura algo que pode voar. Paulina ficou em pé ao lado dele, quieta. Ela não precisava ler. Via na testa do marido a contração de quem está…
O sol deitava-se preguiçoso atrás das montanhas. O Rio Paraíba do Sul corria tranquilo naquele fim de tarde, sua voz baixa e constante misturada ao canto dos sabiás.
No rancho de taipa encostado à beira do caminho, João Ribeiro acomodou os ossos num banco de tronco e tirou o chapéu de couro surrado. Tinha cinquenta…
O ar não se movia sobre Vila Rica naquela manhã de 15 de agosto de 1762. No Solar dos Toledo, o cheiro de cera queimada se misturava ao odor de ervas cozidas que vinha do quarto de Ana Maria. Isabel apertava o terço entre os dedos, sentindo a madeira gasta das contas. Cada grito da…
Como uma cidade decide o que merece continuar vivo e o que precisa morrer de novo.
Três tiros ecoaram no silêncio da manhã. Pop. Pop. Pop.
O Ford preto arrancou antes que alguém abrisse a janela. Subiu a ladeira em direção à Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, cuspindo pedra e poeira como se…
Por muitos anos, antes mesmo de Bal se tornar caçador, um grupo de lobos passou a rondar o acampamento. Onde a tribo ia, eles vinham atrás.
Não se aproximavam do fogo. Não mostravam os dentes. Permaneciam à distância, sentados, deitados, às vezes quase invisíveis entre as sombras. Esperavam apenas o que sobrava das carcaças trazidas…
Relutei muito antes de escrever esta história. Não apenas porque se trata de um episódio real, repetido inúmeras vezes por minha mãe ao longo da minha infância, mas porque, já adulto, ouvi o mesmo relato da boca de alguém completamente alheio à minha história familiar, ainda que ligado à Igreja Matriz de São Sebastião, em…
João Athaíde de Castro e Melo orgulhava-se do nome que carregava. Em Porto Felicidade, ele não era apenas um sobrenome: era uma referência, quase uma unidade de medida moral. Bastava pronunciá-lo para que surgissem histórias repetidas, polidas, transmitidas como certezas, sobre o homem que dera forma à cidade quando ela ainda mal passava de um…
Era agosto de 1932 quando João saiu de casa, na Rua Duque de Caxias. Mirrado, ao menos aos olhos de Dona Matilde, parecia pequeno demais para aquela guerra que não escolhera. Não era uma guerra contra estrangeiros, mas contra parentes. Em Cruzeiro havia primos seus que haviam sido recrutados do outro lado, pelas lideranças paulistas.…
Antônio Gonçalves de Carvalho nunca iludira com promessas de fidelidade a Dionísia, embora ela fosse, inegavelmente, sua escrava preferida — aquela a quem ele dedicava mais tempo e atenção, e cuja beleza exótica o prendia. Antônio jamais admitira que qualquer outro homem sequer se aproximasse dela. Contudo, em sua volúpia desenfreada e egoísta, ele não…
