Outro dia, enquanto eu vagueava pelas minhas próprias nuvens — esse território nebuloso que alguns apelidam de “meu maravilhoso mundo de Bob” — minhas colegas de trabalho conversavam animadamente sobre a mais recente polêmica envolvendo um jogador de futebol e sua namorada, uma influencer de holofotes sempre acesos. Diziam que ele havia feito uma declaração…
Na semana passada escrevi sobre os pequenos gestos — essas delicadezas quase invisíveis que, sem alarde, sustentam o edifício das relações humanas. São gestos tão cotidianos que raramente lhes damos nome, mas é justamente neles que reside a arquitetura silenciosa do amor duradouro. Quanto mais penso nisso, mais percebo que a longevidade de um vínculo…
Há contos que falam mais do que contam. São histórias que, sob o véu do cotidiano, revelam o que há de mais frágil em nós: a incapacidade de aceitar o tempo, o amor e o desejo como forças que não obedecem a ninguém. A história de João Henrique — o empresário bem-sucedido, esposo fiel e…
Não vamos usar nomes verdadeiros para não comprometer ninguém. Comecemos, então, pelo homem que tudo sofreu até se dobrar inteiramente.
João Henrique — ou Joca, como o chamavam os amigos — era, no final dos anos 1980, um empresário respeitado em Barra Mansa. Casado havia mais de vinte e cinco anos, pai de dois rapazes…
Não é exagero dizer que, depois de tantos anos juntos, minha esposa e eu jamais sentimos o peso da rotina. Talvez alguém diga que é porque ainda somos jovens — e eu sorrio, grato, embora saiba que os quarenta e tantos já se encarregaram de desmentir isso. Mesmo assim, não creio que seja juventude. Talvez…
O réveillon de 2000 foi apenas um pretexto. O medo do “bug do milênio” — essa falha técnica que prometia apagar bancos, sistemas e satélites — não passava de uma metáfora involuntária para algo muito maior: o colapso dos afetos. O fim do mundo não veio pelas máquinas, mas pelos corpos. E é exatamente isso…
Era o réveillon de 2000. Enquanto quase todos brindavam a chegada do novo milênio — nas praias, sob fogos, cervejas e promessas —, dois primos, Fabrício e Rivaldo, estavam trancados no quarto, diante do computador. Tinham dezessete e dezesseis anos, e esperavam, ansiosos, o fim do mundo anunciado pelo “bug do milênio”. Entre uma risada…
Aconteceu há muitos anos com um professor que é amigo meu — e cujo nome, por razões óbvias, não posso revelar. Aliás, nenhum nome pode ser revelado.
Era meados da década de 1990 e as férias de verão apenas começavam. Esse meu amigo morava no bairro Santa Clara e lecionava em várias escolas da cidade.…
Há amores que chegam como tempestades de verão: irrompem súbitos, alagam a paisagem e se dissipam com a mesma pressa com que vieram. São os amores jovens, de brilho intenso e chama breve, que fazem da vida uma sucessão de relâmpagos. Vinícius os conhecia bem, e talvez por isso tenha escrito que pedia perdão “por…
O sol de dezembro queimava as cabeças bronzeadas na piscina do Ilha Clube. A água refletia o céu, e o som de “Uma Noite e Meia” reverberava entre risos e mergulhos.
Fernando, treze anos, rosto coberto de espinhas, corria atrás das meninas mais novas. Fazia sucesso com elas — sorria, encantava — mas seu coração…
Em quinze anos de casamento, só dormi longe da minha esposa algumas poucas vezes: por motivo de saúde, quando acompanhei meu pai no hospital, ou em viagens de trabalho a Brasília. Foram ausências breves, mas suficientes para revelar uma verdade que a rotina esconde: o amor também se manifesta na falta.
É curioso como o…
Outro dia, durante uma reunião interminável, daquelas em que o relógio parece zombar da gente, lembrei-me da frase preferida do meu pai — repetida à exaustão na infância e, dizem, falsamente atribuída a Fernando Pessoa: “Cada minuto é um milagre que não se repete.”
A frase ecoou enquanto os slides desfilavam sem alma na tela.…
