Carlinho Fagundes aprendeu a nadar antes de aprender a andar de bicicleta, e aprendeu as duas coisas com o avô.
A casa da família na Rua Eduardo Junqueira tinha o trem na frente e o Rio Paraíba nos fundos. Duas presenças constantes, dois barulhos distintos que Carlinho aprendeu a separar no escuro antes de abrir…
Rio de Janeiro, Palácio do Catete, 30 de outubro de 1942 – 09h00 O gabinete presidencial cheirava a charuto cubano e café forte. Getúlio Vargas estava sentado atrás de sua mesa de jacarandá, lendo o jornal matinal enquanto aguardava. Já sabia o que viria. Sempre sabia. Informação chegava a ele antes de chegar a qualquer…
No bairro Barbará, em Barra Mansa, as casas eram todas iguais e as mais pobres ficavam todas na beira da linha. Fileiras de casinhas de tijolo que a Metalúrgica Barbará havia construído para os operários, com o mesmo telhado, a mesma varanda estreita, o mesmo quintal pequeno que terminava onde começava o talude da ferrovia.…
Barra Mansa, estação ferroviária, 27 de outubro de 1942 – 23h52 A estação estava quase vazia. Duas senhoras idosas aguardavam em banco de madeira, conversando baixo. Um vendedor ambulante fechava sua barraca de jornais e revistas. O bilheteiro bocejava atrás do guichê. Hans Albrecht Krueger – ainda Henrique Weissmann nos documentos que carregava – entrou…
Antes de ser maquinista, João Mendes foi um menino que morava numa casa pequena de fundo de quintal na Várzea da Oficina, e a Várzea da Oficina era um bairro de Barra Mansa que cresceu ao lado dos trilhos como crescem as coisas que não têm outra opção: adaptando-se à vizinhança barulhenta, aprendendo a dormir…
Volta Redonda, alojamento dos engenheiros, 27 de outubro de 1942 – 05h00 Hans acordou antes do despertador. Como sempre. O corpo treinado pela Abwehr não precisava de despertador. O relógio biológico funcionava com precisão militar, mesmo após anos fingindo ser civil. A escuridão ainda dominava o quarto. Roncos de Roberto e dos outros três engenheiros…
Barra Mansa, Grupo Escolar Fagundes Varella, 23 de outubro de 1942 – 15h30 A sala dos professores cheirava a giz, café requentado e perfume barato. Seis mulheres amontoadas ao redor da mesa de madeira manchada por xícaras de anos. Janelas abertas deixavam entrar a brisa quente de outubro e o barulho distante das crianças no…
Barra Mansa, delegacia de polícia, 21 de outubro de 1942 – 11h45 O telegrama chegara às 09h30. Curto. Urgente. Codificado. REMETENTE: DOPS RIO – CORONEL CORIOLANO DESTINATÁRIO: DELEGADO SEBASTIÃO PRADO – BARRA MANSA DATA: 21.OUT.1942 – 08h15
DOSSIÊ OSWALDO RICHTER SEGUE MALA DIRETA TREM 07H00 STOP CHEGADA PREVISTA 11H30 STOP FOTOGRAFIA INCLUÍDA STOP PRIORIDADE MÁXIMA…
Barra Mansa, estação ferroviária, 20 de outubro de 1942 – 10h30 O trem apitou duas vezes antes de parar completamente. Venâncio Ayres desceu primeiro, pisando com cuidado nos degraus de ferro ainda quentes do sol matinal. Cinquenta anos, ex-militar, postura ereta que nunca relaxava. Terno escuro já mostrando manchas de suor nas axilas. Três horas…
Rio de Janeiro, 18 de outubro de 1942 – 05h40 O telefone tocou cinco vezes antes que o coronel Coriolano de Almeida Prado Lima atendesse. Não estava dormindo. Raramente dormia. Homens na sua posição não tinham luxo de sono tranquilo. — Coronel Lima — disse ele, voz firme apesar da hora. Do outro lado da…
Barra Mansa, Rua Eduardo Junqueira, 184, 18 de outubro de 1942 – 18h30 A última luz do dia morria sobre o Vale do Paraíba. Adler estava imóvel havia tempo demais, escondido atrás do depósito de lenha coberto pela lona verde. A mangueira velha projetava sombra suficiente. Dali, via perfeitamente a porta dos fundos da casa…
A plataforma da estação de Barra Mansa cheirava a carvão e a despedida.
Era sábado, quinze de janeiro de 1944, e o trem para o Rio de Janeiro esperava com a impaciência das máquinas: vapor vivo, rodas paradas, como um cavalo que morde o freio. Na plataforma, a aglomeração habitual de mães e noivas e…
